Leituras mal amanhadas

Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

NATAS DO CÉU, Maria Laranjeira e Ana Gentil

SUSPIROS

Batem-se as claras em ponto de nuvem
e juntam-se algumas lágrimas
de final de tarde.
Enquanto o fogo arde,
suspira-se suavemente,
para não tornar a massa pesada.
Depois reparte-se esta
em pedacinhos etéreos,
que vão ao forno
em forma untada ao de leve,
e espera-se pacientemente
que façam crescer água na boca
para melhor se dissolverem
no imaginário.
Consomem-se com o nascer da lua,
sem deixar arrefecer.


LARANJEIRA, Maria; GENTIL, Ângela. NATAS DO CÉU: Poesia de comer e chorar por mais. (p. 87).
Para quem ama a culinária, a degustação, a destrinça de sabores, um livro bem temperado de um erotismo contido, mas assumido.

domingo, 31 de dezembro de 2017

HOMENS BONS, de Arturo Pérez-Reverte


«…não há melhor pedra de amolar lâminas do que a letra impressa.» (p.226)

Arturo Pérez-Reverte parece querer lutar contra a tacanhez, a ignorância, a resistência à mudança e ao progresso, valorizando a honra e a lealdade, assim como conhecimento manifestado à época pelos militares mais ilustrados. Por outro lado, critica fortemente o poder dos reis e dos nobres que ignoram e maltratam aqueles que governam, pelos quais deviam velar e providenciar para que as suas vidas fossem menos duras. O autor aproveita também para indiciar a Revolução Francesa que se aproximava…


As críticas ao passado acima referidas valem, sem dúvida, também para as estruturas governativas do nosso tempo.



É facto que na biblioteca da Real Academia Espanhola existe una coleção completa da Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers… publicada por M. Diderot … e M. D’Alembert. É a partir desta descoberta que o autor homenageia a Academia Espanhola, da qual faz parte desde 2003, e cria este romance histórico que, para além do valor intrínseco da história em si, vale também pela reflexão integrada no texto do seu processo de criação e construção, invocando pesquisas para este e para romances anteriores, assim como o recurso a uma bem fornecida biblioteca pessoal. Nesta perspetiva podemos mesmo falar de um metaromance, ou seja: um romance que pensa o romance.

Recria os costumes de Paris no século das luzes e, talvez por isso, aí decorre grande parte da ação, colocando os dois «homens bons», acompanhados de um seu compatriota, padre e revolucionário, em vários dos lugares em que se discutia o presente e o futuro das ciências e das sociedades, comparando amiúde a situação de Espanha com a de França.

Na parte final parece um pouco forçada a maneira como se preservam os 28 volumes da Enciclopédia, no entanto o desenlace acaba por ser bem conseguido, pois os livros apenas se salvam devido à coragem de quem nunca se esperaria e ao apego à pele do bandido encarregado de boicotar a missão dos dois membros da Academia Espanhola.

SINOPSE do editor: «Na Europa do século XVIII, dois homens viajam em segredo. A sua missão? Levar para Espanha algo proibido: os 28 volumes da Enciclopédia Francesa de D'Alembert e Diderot. A delicada tarefa está nas mãos do bibliotecário don Hermógenes Molina e do almirante don Pedro Zárate, membros da Real Academia Espanhola. Mas estes dois académicos estão longe de imaginar as peripécias que os aguardam… Da Madrid de Carlos III à Paris libertina e pré-revolucionária, com os seus cafés e tertúlias filosóficas, don Hermógenes e don Pedro embarcam numa intrépida aventura, repleta de heróis e vilãos, intrigas e incertezas. Com o rigor a que já nos habituou – e baseando-se em acontecimentos e personagens reais, Arturo Pérez-Reverte transporta-nos para a magnífica era do Iluminismo, quando a ânsia de liberdade derrubava a ordem estabelecida, e dá-nos a conhecer os heroicos homens que quiseram mudar o mundo com os livros. Um romance sobre fé e razão, Teologia e Ciência, sombra e luz.»

PÉREZ-REVERTE, Arturo. Homens bons. Asa, 2016

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A ÚLTIMA RODADA, Rui Miguel Fragas



Post Mortem


Há, no presente conjunto de contos, uma realidade dual.
Todas as personagens são, ou estão acompanhadas por, uma outra. Poder-se-á pensar que se discute aqui o eterno conflito ou a coincidência entre os opostos bem / mal, vida / morte, ou mesmo a dualidade de todos os seres humanos. Todos esses temas são certamente aflorados, mas sem o propósito de criar uma situação problemática que vai ser resolvida no fim da narrativa, aliás a obra suscita muitas questões e nenhumas respostas. Alguns exemplos: Por que razão há um funil que atravessa todas as histórias?; Para onde dá o precipício?; Por que é necessário um faroleiro?; Por que são tantas e tão diferentes as vozes que contam as historias?; Até que ponto as dietas são importantes, pois as várias personagem têm bebidas preferidas e apreciam diferentes petiscos?; Se considerarmos a aldeia metonímia do mundo: Que está fora dela? Que ou quem simbolizam as várias personagens principais?…

Encontra-se, nestes textos, uma espécie de poética da destruição, ou melhor da entropia. A constatação do aniquilamento progressivo dos aldeões vai-se intuindo e adensando ao longo leitura através da isotopia da morte, mas nada nos prepara para o ressurgimento destes num outro plano da realidade.
De facto, desde o início vão-nos aparecendo vocábulos directa ou indirectamente relacionados com a morte[1], que pela sua acumulação vão preparando o leitor para o desenlace: aniquilação total  da aldeia.
Aparentemente o fogo, símbolo de destruição, mas também de limpeza, de esterilização, é aqui o fogo do inferno. Mas, paradoxalmente é este fogo que extirpa o “mal”. Poderá um novo “bem” prosperar, até que volte a ser “mal” e de novo destruído?.
Se o fantasma, o doppelganger[2], numa outra realidade, têm direito a uma última rodada, implica que entre o etéreo e a matéria há uma zona de sobreposição que permite a um pirilampo ser farol e faroleiro, a uma bruxa ser Amílcar e a uma ovelha ser mais ajuizada que o menino que a pastoreia.

- Taberneiro, bota aí mais uma prò caminho!


Para avivar a vontade de ler, com a devida vénia ao autor e a sua autorização, aqui vão dois extractos de diferentes contos:

Conversa entre um cão, Nicolau, e uma ovelha, Angelina:

«Ainda há coisa de dois anos vivia eu numa aldeia muito longe daqui, começou o cão. Nessa altura não tinha muitas razões de queixa. Era dono de uma casota onde a chuva não entrava e a geada ficava à porta, nunca me faltava um osso, por mais descarnado que fosse, passava os dias a dormitar sem ter com que me ralar e, ainda por cima, todas as cadelas cainças vinham cair aos meus pés.
De certeza que era por seres bem-parecido, atalhou Angelina de sobrancelha arqueada.
Vê-se logo que és uma ovelha de bom gosto. Era exatamente o que elas me diziam. A minha dona era a mesma que tenho hoje, a mulher que tu conheceste e que está a dar de comer ao rapazito que veio contigo. Chama-se Natália. Nessa altura era casada e mãe de três filhos. Se não fosse o marido, poder-se-ia dizer que vivíamos no paraíso. O homem no entanto era mau como as cobras. Passava o dia a trabalhar numa pedreira e mal chegava a casa punha-se a desancar na triste. […] Nessas alturas nem eu escapava. Haverá coisa mais absurda do que um homem espancar um cão inocente?
Angelina absteve-se de fazer comentários: tinha assistido a tantas injustiças que já poucas coisas a surpreendiam. Nicolau arrebitou as orelhas, farejou a escuridão, lançou um ladrido desafinado e desapareceu mais depressa que um raio. A ovelha poisou o focinho sobre a palha e fechou os olhos cansados. Vou ter uma noite desgraçada, suspirou.» (p. 104-105)

Um pirilampo que é farol e faroleiro:

«Em rigor o farol não existia: era apenas o esboço de uma ideia vaga e informe, qualquer coisa que tinha sido parida antes de ser plenamente concebida. Quanto ao resto era um farol como todos os outros. Projetava raios intermitentes de luz a milhas de distância graças a um aparelho óptico de lentes de vidro e, porque no centro do varandim sobre uma máquina de relojoaria tinha sido instalado um banquinho, tanto alumiava na direção do mar como, quando rodava, alumiava o planalto e pairava sobre as árvores da floresta.
O faroleiro era um pirilampo chamado Vergílio. Era um velho vaga-lume de rosto esquálido, de pele dura trabalhada pelo vento, sulcada de rugas, de olhos grandes e antenas murchas. Só o abdómen sobressaía sobre as pernas fininhas, um ventre saliente e untuoso como uma bola de sebo envolta em veias tortuosas. Nem a ginástica que as escadas o obrigavam mais do que uma vez ao dia, duzentos degraus para cima e outros duzentos para baixo, lhe tinham alisado o ventre ou engrossado os músculos das pernas. Tinha envelhecido na solidão do planalto, anos e anos a fio, suspenso sobre a boca do abismo.
Vergílio tinha uma existência um pouco esquizofrénica. Como o farol era o que era, pouco mais do que uma ideia, o pirilampo fazia de farol ao mesmo tempo que trabalhava como faroleiro. Uma coisa é ser faroleiro: limpar e tratar do edifício, cumprir os horários de vigilância, estar atento aos caprichos do tempo, adivinhar as tempestades e acionar os mecanismos de alerta. Outra coisa bem diferente é sentar-se no tamborete giratório de ventre para o ar e pôr-se a acender e a apagar, a apagar e a acender, a piscar e a voltar a piscar, noite após noite, só com um gorro na cabeça ou, quando o vento o permitia, um chapéu-de-chuva empenado a proteger as antenas. Ser farol e ser faroleiro é como ter duas profissões a tempo inteiro, trabalhar quarenta e oito horas por dia e, em certas alturas, fazer ainda horas extraordinárias. O esforço do pirilampo não só não era remunerado, como não era reconhecido por nenhuma autoridade competente.» (p. 129-130)
FRAGAS, Rui Miguel. A última rodada. Poética Edições, 2017

[1] V.g.: Morte – 30; cemitério – 13; coveiro / cova – 80; precipício / abismo – 20; sangue – 18; negro, negrume, preto –  c. 50… A ocorrência destas palavras representa mais de 1% de todos os vocábulos usados na economia da narrativa.
[2] Refere-se a um ser que, de acordo com o folclore germânico, encarna uma cópia de uma pessoa a quem acompanha. Conceito um pouco diferente do ibbur, que é protagonista dos Anagramas de Varsóvia de Richard Zimmler («Um ibbur? – Um ser como você, que regressou da terra que fica atrás da berma do mundo.» - Ed. Oceanos, 2009; p. 16), sendo este último um espírito de alguém morto que procura resolver problemas que ficaram por resolver em vida.



O CASSADOR[1] DE MUROS, Ana Filomena Amaral



Este livro chama a atenção do leitor para os muitos muros que, pelo mundo fora, separam os povos. Frequentemente povos irmãos, noutros casos opressor e oprimido.

Os exemplos abordados são:
O derrubado Muro de Berlim, Alemanha (p. 15);
Pyong Yang, Coreia do Norte (p. 39);
Belfast, Irlanda do Norte (p. 68);
El Aaiún – Gdeim Izik, Sahara Ocidental (p. 78)[2];
Jerusalém, Gaza, Israel (p. 99);
Caxemira – Srinagar, Índia(p. 144);
Nogales, México (p. 166);
Rio de Janeiro, Brasil (p. 176).

No entanto, os muros mais importantes de todos são aqueles que existem dentro de nós: criados pela educação e pela socialização, nomeadamente pela vivência dos próprios «murados».
A autora opta pela generalização do argumentário, ou seja, na vertigem de elencar todos os muros, poucos argumentos são aduzidos para cada circunstância e não há, como agora se diz, qualquer contraditório.

O protagonista, Alberto Albuquerque, é uma espécie de catalisador que, chegado aos locais dos muros, acelera ou provoca uma reação.
A vida pessoal deste jornalista, depois de ter assistido e escrito sobre a queda do Muro de Berlim, torna-se mais ativa e empenhada, levando-o a cassar outros muros, nomeadamente os que existem dentro de si.
Se em relação aos muros tudo é sofrimento e dor, em relação à sua recém-descoberta família é quase tudo amor e harmonia.
O livro é de fácil leitura, apesar de alguma inovação a nível da apresentação dos diálogos (entre aspas e sem qualquer menção de quem diz o quê). Vale essencialmente pela parte documental e pela escolha feliz de canções de luta que ilustram os conflitos listados.

Sobre a autora transcreve-se da badana:
«Ana Filomena Leite Amaral nasceu em Avintes, a 4 bde setembro de 1961. É mestre em História Económica e Social Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, possui o curso de pós-graduação em Ciências Documentais / Biblioteconomia, e uma larga experiência como intérprete e tradutora de várias línguas europeias, mantendo particular contacto com a língua alemã. Atualmente é técnica superior do Ministério da Educação. O Cassador de Muros é o seu sexto romance…»

AMARAL, Ana Filomena. O CASSADOR DE MUROS, Chiado Editora, 2014.


[1] O verbo cassar significa, grosso modo, anular, quebrar.
[2] Sobre o conflito entre Marrocos e o povo Saharauí o maestro Victorino d’Almeida escreveu um pequeno e interessante livro de nome: Polisário: Memória da Terra Esquecida. Cadernos O Jornal, 1984.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

DIÁLOGOS POÉTICOS?!



RUY BELO 1933 - 1978
LUZ VIDEIRA

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

In Aquele Grande Rio Eufrates.


Espera

Ainda o pardal
Solta o seu canto a medo,
Mas já no ondular
Do arvoredo
Eu vi o despertar de um cio novo.


Também meu corpo todo
Por ti espera.


Quando vens, Primavera!


In Maré Cheia. Ed. autor, 1970 (p.18)

Aparentemente Ruy Belo dialoga com a primavera que está a chegar. Há, no entanto, um tu que ama o eu no poema. E o título do poema é deveras intrigante.


Como no poema de Ruy Belo é um pássaro que anuncia a Primavera.
Mas aqui há um apelo direto à fruição da vida e à consumação do amor.

MIGUEL TORGA  1907 - 1995
LUZ VIDEIRA

São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

in "Diário IX"

Galafura – São Leonardo

Não sonhei,
Vi.
Morava ali a Beleza
Nua, inteira,
Reino de assombro,
Sonho sem fronteira.

In As quatro estações. Atlântida, 1973 (p.17)


Miguel Torga canta-nos São Leonardo ao leme de um navio de pedra, a montanha, que se desloca muito lentamente do cais humano em direção ao cais divino, lavrando as ondas chãs de um rio de mosto de vinho fino, dito do Porto.


Luz Videira, no mesmo lugar, realça principalmente a assombrosa beleza do miradouro natural, enfatizando a experiência através do verbo ver em oposição ao sonhar. Mas acaba  sonhando…


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

UMA EXISTÊNCIA OUTRA, Isabel Maia



No passado domingo foi apresentado o livro de poemas em epígrafe.
A poeta, depois de adiar por várias décadas a publicação desta coletânea, decidiu agora separar-se destes poemas, em constante aperfeiçoamento, e dá-los ao público.
A poesia de Isabel Maia surge muito marcada pelo percurso existencial, em que a solidão, a dor e a erosão que o tempo provoca são temas predominantes. Os poemas remetem aparentemente para momentos relevantes da sua vida, no entanto, como é sabido, uma coisa é a vida escrita e, naturalmente, outra a vida vivida.

Com a autorização da autora, eis dois dos poemas, seguidos de breves comentários:

A solidão é um local desabrigado

A solidão
é um local desabrigado

que altera o voo das aves
e a cor das violetas

A solidão, considerada em abstrato, não altera nada. No entanto, para a pessoa que está só tudo poderá ser alterado. Veja-se que o eu poético, para exemplo desse estado alterado, escolheu o céu e a terra, o alto e o baixo, o animal e o vegetal: dois dos seres mais belos que o nosso mundo produz. Note-se ainda que o único abrigo que poderá existir é a terra, pois o céu também é desabrigado, fatalmente as aves terão de pousar. Talvez na haste de alguma flor, e essa união da ave com a flor dissolva a solidão.


Com os cotovelos da alma

Com os cotovelos da alma
apoio-me na varanda do 6.º andar

Pedaços de vida lá fora

da mulher que apanha cenouras
para um avental
do homem sem idade que apanha lixo
para uma saca velha
dos doentes que passeiam as dores
nos jardins do hospital

saudades cá dentro

o vidro partido daquela janela
continua à espera que o vão lá trocar
janelas nuas tinta descascada
roupa pendurada

Morava ali uma mulher
que se lançou no ar à procura de paz

Vai chover
Papéis rodopiam folhas rodopiam
no chão pardacento
o homem da saca
a mulher das cenouras
os pés dos doentes
os papéis e as folhas
todos partiram

Só eu fiquei
contigo na alma
contigo na chuva
no chão pardacento
nas folhas que giram

na tarde que morre

Poema construído a partir de fragmentes significativos do que o eu poético vê a partir de uma janela alta e daquilo que esses «pedaços de vida» evocam.
A apresentação de todas as pessoas referidas como tendo partido, as pinceladas que apresentam a vida da cidade como desumana, podendo mesmo culminar em suicídio, ou ainda a feição outonal da natureza fazem o sujeito poético pensar, quase de forma circular, nas saudades referidas no início e na ideia de finitude, de morte.
Uma pergunta ainda: Quem é ou o quê é o «tu» interpelado por «contigo»?

Sobre Isabel Maia transcreve-se da badana:

«Isabel Maia
na Escola, no Liceu, na Universidade de Coimbra, onde completou a licenciatura em Filosofia, e deixou a meio a de Jornalismo,
nasceu em Coimbra, cidade que sempre levou no coração para onde quer que fosse,
paisagens, todas, especialmente as literárias,
desde pequena que escreve, em folhas dispersas, ou em cadernos que perde,
é, sobretudo, na poesia que se revê, como um modo de ser e respirar,
daí, este livro, com décadas de atraso.»


MAIA, Isabel. Uma existência outra. Palimage, Coimbra, 2016.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CINCO ESQUINAS, Mario Vargas Llosa


MARIO VARGAS LLOSA, 1936 (Prémio Nobel da Literatura, 2010)

A história ocorre, no Peru, nos anos da ditadura de Fujimori (1990-2000). Este é apenas referido, relevando apenas a controvérsia da sua naturalidade, pois não é absolutamente claro que tenha nascido no Peru, o que não lhe permitiria ser presidente. A figura principal em relação ao poder é um Doutor que tudo controla, incluindo o presidente.
O que está aqui em causa é o poder e a corrupção que este suscita, segundo John Dalberg-Acton: «O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente».
No romance o doutor Montesinos é aquele que verdadeiramente manda no país. Através dos meios de informação, domina os seus adversários, explorando as suas fraquezas e os seus vícios, se necessário inventados, recorrendo a chantagem e até ao assassínio.

Existem seis personagens com responsabilidades várias no desenlace.
O livro começa por estabelecer a relação homossexual entre Chabela e Marisa, mulheres de poderosos homens, a primeira de um advogado conceituado, a segunda de um industrial mineiro. Ambos ricos e respeitados pelo regime.
A relação entre as duas mulheres, amigas desde sempre, parece nascer de um caso fortuito: a necessidade de Chabela passar a noite em casa de Marisa, visto que há recolher obrigatório e, entretidas a conversar, não terem dado conta do passar do tempo. No entanto isto poderia ficar por aqui, mas a relação mantém-se e agrada-lhes.
Henrique, marido de Marisa, algum tempo atrás estivera numa orgia da qual existem fotografias. É-nos mostrado como que quase inocente, em que tivera o comportamento que tivera apenas devido a ter bebido demais e consumido drogas. O marido de Chabela virá a defendê-lo quando o caso é publicitado.
A publicação das fotografias ficará a dever-se a um jornal de escândalos, Destapes, cujo diretor – no fim deste texto transcreve-se o modo como é retratado –, fracassando um tentativa de chantagem, decide publicá-las. Surge também uma jornalista do mesmo tabloide que redige o texto e virá a ter, alegadamente, a responsabilidade da queda do regime.

Há nesta ficção muito de realidade, nomeadamente na existência de um doutor Montesinos, que terá sido o braço direito do ditador Fujimori. O poder é visto como presa fácil para homens medíocres e sem escrúpulos, o jornalismo, principalmente o dos tabloides é apresentado como uma arma de arremesso desse poder corrupto e manipulador.

A reduzida estatura dos dois jornalistas de escândalos, Rolando Garro e Retaquita, será a assunção, por M.V.L., da menoridade deste jornalismo. No entanto é Retaquita que, apesar da sua insignificância, apeia do poder o homem forte do regime e, segundo o romance, o seu títere, Fujimori, sem outra arma que o dito jornalismo menor, ainda que aproveitando a caixa de ressonância do jornalismo mais sério. O livro poderá levar-nos a pensar que atualmente o jornalismo tem perdido o seu papel informativo em detrimento do entretenimento.
Em contrapartida os poderosos são muito bem vestidos de corpo: os homens elegantes e as mulheres belíssimas.

Retrato do diretor do Destapes visto pelos olhos de Enrique Cardenas, Quique:
«O seu andar tarzanesco, esbracejando e rebolando-se como o rei da selva? O sorrisinho tatoneiro que lhe encolhia a testa sob aqueles cabelos lambidos e colados ao crânio como um capacete metálico? As calças apertadas de veludo cotolê que cingiam como uma luva o corpinho apertado? Ou aqueles sapatos amarelos com grossas solas para fazer crescer a sua figura? Tudo nele lhe pareceu feio e piroso.» …
«Tinha uma vozinha estridente e parecia estar a troçar, com uns olhos pequeninos e movediços, um corpinho raquítico, e Enrique reparou até que cheirava mal… usava casaquinho azul muito cintado e uma gravata furta-cores que parecia estrangulá-lo. Tudo nele era minúsculo, incluindo a voz.» (p. 21)

Da história desta personagem, o narrador adverte-nos de que foi adotado e que fugiu quando os pais adotivos lhe revelaram não serem os seus pais biológicos. Rouba-lhes as economias e desaparece, vivendo de expedientes até encontrar o filão do jornalismo de escândalos.
Repare-se que o uso do diminutivo acrescenta um ar caricatural à já reduzida figura deste homem.
É também de forma caricatural que é apresentada Retaquita, significando esta alcunha, atarracadita.

Importa referir, embora não diga respeito diretamente a este livro, e não pretendendo acrescentar nenhum juízo de valor, apenas um facto, que M. V. Llosa perdeu a eleição para a presidência do Peru, precisamente, contra Fujimori.

LLOSA, Mario Vargas. Cinco Esquinas. Quetzal, 2016