Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A SEDE DA PALAVRA, de Cândido José (Tavares da Silva Baptista) de Campos

Este não comento, nem a razão por que o escolhi.





MANIFESTO


Nada tenho de novo que vos diga
Pois tudo foi já dito antes de mim
Resta-me dizer não em vez de sim
Quando surgir um sim que se desdiga.


in A Sede da Palavra, Cândido José de Campos. Ed. de Autor, 1982
Autografo. Lisboa 1982

Outras obras do autor:
Não quero os trinta dinheiros, 1980
D. Quixote vem a pés, 1981
Preciso de linho novo, 1982 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ESTRELA DISTANTE, Roberto Bolaño



É-me difícil elogiar este livro, ainda que lhe econheça valor.
Primeiro, vamos à sinopse e à nótula biográfica incluídas nas badanas:

«O narrador viu pela primeira vez aquele homem. em 1971, ou 1972, quando Allende era ainda presidente do Chile. Então, fazia-se chamar Ruiz-Tagle e deslizava com a distância e a cautela de um gato pelos ateliers literários da Universidade de Concepción. Escrevia poemas também distantes e cautelosos, seduzia as mulheres, despertava nos homens uma indefinível desconfiança. Voltou a vê-lo depois do Golpe, época em que até os poetas jovens de dezoito anos, como ele, se viram de repente, mergulhados numa repentina e sangrenta maturidade. Mas nessa ocasião, o narrador - que conta a história desde o limite entre o fascínio e a necessidade de saber, ou de fazer saber -, ainda ignorava que aquele aviador, Wieder, militar de carreira que escrevia com fumo versículos da Bíblia com um avião da Segunda Guerra Mundial, e Ruiz-Tagle, o péssimo aprendiz de poeta, eram uma e a mesma pessoa. Versículos que os prisioneiros nos estádios liam, e que já não leriam as irmãs Garmendia, duas das poetas que ele tinha seduzido e feito desaparecer.
E assim, num percurso pelas muitas bifurcações dos caminhos da história, das mitologias e das literaturas da nossa época, é-nos contada a fábula nada exemplar de um impostor (mas não somos todos impostores, nalgum momento das nossas vidas?), de um homem de muitos nomes, sem outra moral a não ser a estética (mas não é esta a aspiração de qualquer artista?), dandy do horror, assassino e fotógrafo do medo, artista bárbaro que levava as suas criações até às últimas e letais consequências.»

«Roberto Bolaño

(1953-2003), nascido no Chile, narrador e poeta, impôs-se como um dos escritores latino-americanos do nosso tempo.
Publicou, entre outros, os ensaios recolhidos em Entre Paréntises, os livros de contos Llamadas telefónicas (Prémio Municipal de Santiago do Chile), Putas asesinas e El gaucho insufrible, e os romances Estrella distante, Amberes, Los detectives selvajes (Prémio Herralde de Novela e Prémio Rómulo Gallegos, ambos por unanimidade) e o monumental 2666.»

Agora, resta-me dizer que o livro está pejado de referências culturais, principalmente a autores e livros chilenos que, devido à minha ignorância, se tornam ininteligíveis.
Acabo citando uma frase da p. 150.:
«Lia mas as palavras passavam como escaravelhos incompreensíveis, atarefados num mundo enigmático.»

BOLAÑO, Roberto. Estrela distante. Teorema, 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O LADRÃO DE SOMBRAS, Marc Levy


O livro apresenta a epígrafe: «Há pessoas que não abraçam senão sombras; essas têm somente a sombra da felicidade.» (“Some people kiss shadows. They only feel the shadow of joy.” – Mercador de Veneza), remetendo, entre outras, para a ideia de que as relações baseadas em fingimento estão condenadas ao insucesso, só a autenticidade poderá trazer aos intervenientes verdadeira alegria.

Romance de fácil leitura, muito apelativo que retrata cerca de 10 anos na vida de um rapaz especial: a sua sombra mistura-se ou troca com a de outras pessoas e, nesse processo, ele fica a saber factos importantes da vida da pessoa em causa, que ele usa sempre com a melhor das intenções, procurando tornar melhor a vida de todos aqueles com que se cruza.
A história começa a seguir a uma mudança de escola, onde tem de enfrentar o assédio, ainda que mitigado, de um colega mais corpulento. Depois surge a separação dos pais, da qual ele se sente erradamente responsável. Descreve também a maravilhosa relação que mantém com a mãe. Mostra como a percepção deste seu dom pode ser útil a toda a comunidade. E ainda entre outros temas menos relevantes o surgimento do amor e, aparentemente, como uma paixão juvenil consegue permanecer até à idade adulta, terminando o romance com um fim aberto, mas em que se vislumbra uma vida feliz para este rapaz que entretanto se tornou médico.

Transcreve-se a sinopse exarada na contracapa:

«No seu novo romance, Marc Levy conta a história de um rapazinho com um dom invulgar: ele consegue «roubar» as sombras das pessoas com quem se cruza. Ao princípio, acontece-lhe involuntariamente e isso chega a assustá-lo. Sempre que se cruza com alguém - seja um amigo, um inimigo ou um perfeito desconhecido -, a sombra da outra pessoa passa a segui-lo. Por vezes contra a vontade do rapaz, as sombras contam-lhe os mais profundos desejos, temores e aspirações das pessoas a quem pertencem. E o rapaz vê-se em mãos com um dom que traz uma grande responsabilidade: ao saber estes segredos, terá de ajudar as pessoas - ajudá-las a recuperar «essa pequena luz que lhes iluminará a vida». Durante umas férias de verão à beira-mar, apaixona-se por uma rapariga muda, chamada Cléa, com quem comunica através da sua sombra.
E a sombra deste primeiro amor acompanhá-lo-á durante anos... Mais tarde, o nosso «ladrão de sombras» torna-se estudante de Medicina, e debate-se com a questão de usar ou não o seu dom para ajudar a curar - tanto os seus pacientes como os seus amigos. Afinal, será ele verdadeiramente capaz de adivinhar o que poderá fazer felizes aqueles que o rodeiam? E ele próprio, saberá onde o espera a felicidade?
Um romance terno e divertido sobre os silêncios que assombram todos os nossos amores.»

LEVY, Marc. O ladrão de sombras. Bertrand, 2013.

sábado, 1 de agosto de 2015

QUE IMPORTA A FÚRIA DO MAR, Ana Margarida de Carvalho


            Primeiro romance da autora, filha do extraordinário escritor Mário de Carvalho, e que, de acordo com a informação incluída na badana, é licenciada em Direito, jornalista premiada, crítica cinematográfica, cronista e dramaturga.
            Este livro apresenta um número reduzido de personagens. Apenas o suficiente para a economia da narrativa, sendo que há duas personagens principais, cuja história, inicialmente, é apresentada de forma alternada: a de Joaquim, sobrevivente do campo de detenção do Tarrafal, e a de Eugénia, jornalista que quer contar a história de vida do primeiro. Posteriormente, as duas histórias fundem-se na narração de Eugénia que, na busca para compreender Joaquim se transfigura, encarnando mesmo em determinados momentos a idealização da amada de Joaquim, Luísa.
            Apresenta um estilo muito interessante, algumas vezes muito perto da poesia, principalmente nos capítulos introdutórios em que a história é vista numa perspectiva rasteira, perto do chão, onde jaz o maço de cartas de amor que Joaquim escrevera à sua amada, e que atirara pela janela do comboio, na viagem que o haveria de levar à deportação.
            A autora revela grande erudição nas múltiplas citações de cultura, abrindo a sua obra à intertextualidade. Reconhecem-se facilmente citações de Camões, Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro…, algumas identificadas, outras não. A nível da utilização da linguagem rebela-se contra o uso de lugares-comuns, do «cliché», no entanto reconhece-lhe o valor no estabelecimento de uma relação de empatia com o leitor, portanto não o irradica por completo do seu discurso, consciente da sua utilidade. Por outro lado, defende a verosimilhança e, no entanto, quanto a mim, é dificilmente crível, não a história de Joaquim, mas sim que da relação que estabelece com esse homem doente, algo demente, pudesse ser inferido aquilo que fica relatado.
            Ainda assim a história é extraordinária e muito bem contada, sendo que os indícios que foram sendo introduzidos ao longo das duas histórias, vêm a verificar-se. A surpresa pelo fim é apenas aparente pois, muito atrás, ficou implicito que ao mensageiro do amor se paga com amor.
            O título parece indicar que a história de Eugénia é mais importante do que a de Joaquim. O mar que marcou a sua infância em casa dos tios, um tio e duas tias, não é o mesmo que leva Joaquim ao Tarrafal.

Transcreve-se da contra-capa:
“Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.
Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma. Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.”

Este romance foi finalista do Prémio Leya em 2012 e ganhou em 2014 o Grande Prémio de Romance e Novela APE.

CARVALHO, Ana Margararida de. Que importa a fúria do mar. Teorema, 2013.

domingo, 17 de maio de 2015

Poemas de amor e não, Sérgio Paulo Silva (1950)



POEMA DE SEMPRE

Escreverei o meu amor a giz para iluminar as paredes solitárias.
Egito Gonçalves

Escreverei uma jarra bordada de flores e insectos
Para iluminar as horas mais nuas
Os vidros Os metais Escreverei uma anémona
Para iluminar os versos mais gelados
Um nome Uma esperança
Escreverei o meu amor a giz
Para iluminar as paredes solitárias


POEMA FRUGAL

As horas
quebram-se
nas veias
e enchem
de estilhaços
o coração.

Da contracapa: «Sérgio Paulo das Neves Rodrigues da Silva dá testemunho, em Poemas de Amor e Não, de propostas tensas dum canto intranquilo e ácido, que desfibra a selva em que habitamos, disfarçados e sombrios…
Poesia estranhamente exacta e distante, ela reflecte um pensar que se vai modelando e lança mão de operações onde um lirismo contundente e uma angústia impetuosa esbatem as barragens desencantadas de um convencionalismo e dum parentalismo pátrio.»
José de Matos-Cruz

SILVA, Sérgio Paulo das Neves Rodrigues da. POEMAS DE AMOR E NÃO. Livros sem editor, n.º 2. 1971

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O OURO DOS CORCUNDAS. Paulo Moreiras





Mais uma vez, tal como no romance A demanda de D. Fuas Bragatela, o autor elege como protagonista da sua história um homem humilde, empurrado pelo destino para a delinquência e a malandragem, muito na tradição do pícaro.
Aqui a personagem principal, Vicente Maria, na tentativa de se libertar das peias que o forçam ao roubo e a outros estratagemas de sobrevivência, bate a todas as portas, procurando uma oportunidade de viver dentro do enquadramento legal, para endireitar a sua vida. Porém, pela influência de um homem poderoso, despeitado e invejoso do seu sucesso amoroso, todas as vias se lhe fecham.
Sem saída para este problema, conluia-se com um grupo de assaltantes para roubarem uns fidalgos. Por sorte ou azar roubam uma outra carruagem que transporta ouro do rei D. Miguel, romanescamente destinado a fazer pender a guerra que mantém com seu irmão D. Pedro a seu favor. Isto era demais para estes pequenos delinquentes. Os soldados, com marcas de crueldade, seguem as pistas e depressa localizam os responsáveis e matam todos menos Vicente Maria, que vem a ser preso posteriormente. Graças à sua esperteza é levado à presença do rei e convence-o a dar-lhe a liberdade em troca da localização do ouro.
Recuperado o ouro, Vicente Maria é solto e é-lhe dado um prazo breve para sair do país.
Virá a consegui-lo com a ajuda de um amigo, não sem antes ter de enfrentar em grande desvantagem o seu poderoso inimigo que acaba por ser morto pela amada de Vicente, violada pelo mesmo na juventude.
Neste universo romanesco, pejado de uma linguagem arcaizante, somos levados a pensar que este homem insignificante poderá ter mudado a História de Portugal.

MOREIRAS, Paulo. O ouro dos corcundas. Casa das Letras, 2011.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O OSSO DA BORBOLETA, Rui Cardoso Martins



História de um homem que se esconde da polícia no sótão de uma casa na Figueira da Foz. Esta casa, aliás como outros espaços mencionados, é facilmente identificável.
A história do narrador está relacionada com outras personagens, das quais vamos sabendo o seu percurso existencial. É através destas que vamos sabendo a sua história, nomeadamente através de uma vizinha que se vem a revelar a personagem mais importante do romance. Há ainda, lateralmente, a história de um casal de jovens judeus refugiados que tinham habitado aquele mesmo sótão, onde agora se encontra o auto-suficiente narrador.
Borboleta / D. Purificação, que fora uma bela mulher e ajudara a cativar turistas e veraneantes para o jogo, depois de ter tido um grande dissabor com a perda do seu amor espanhol, que lhe deixou uma filha para criar, vem a revelar-se dura, daí o título emprestado de um verso de um poeta brasileiro, como homem que provavelmente foi responsável por ela ter sido abandonada. Este homem é corrupto e lascivo e tenta agora recuperar algum do dinheiro sujo que investiu, ironicamente, no homem que é amante da filha de Borboleta, revelando-se uma espécie de circularidade da história de mãe e filha.
Nas descrições de lugares e de personagens abundam alfinetadas ao carácter de gruposn sociais e mesmo de algumas pessoas quase que identificadas e a factos ocorridos na Figueira da Foz ao longo de várias gerações.
O autor escreve de forma sóbria e eficaz e o conhecimento da vida na Figueira da Foz veio certamente da sua permanência nesta cidade, durante o tempo em que foi casado com a jornalista, tradutora e escritora, Tereza Coelho, que infelizmente já nos deixou.
Mesmo que não nos interessemos pela Figueira da Foz, vale a pena ler!

MARTINS, Rui Cardoso. O osso da borboleta. Tinta da China, 2014.