Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


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sábado, 9 de novembro de 2013

O ATALHO DOS NINHOS DE ARANHA, Italo Calvino



Este é o primeiro livro do autor e foi muito bem aceite. Retrata a resistência à dominação germânica e é por alguns integrado no Neorrealismo italiano.
O romance passa-se durante o período em que Benito Mussolini governa Itália (1922-1943) e foi publicado pela 1.ª. vez em 1947, tendo o regime fascista acabado em Itália em 1945.
Pin com a sua «voz rouca de menino velho» confronta todos com quem se cruza, expondo os seus defeitos e vícios, apesar de muitas vezes ser de seguida espancado. Órfão de mãe, abandonado pelo pai, ajudante de sapateiro é um grande observador e conhece todos os podres da viela que habita. Dá-se com os grandes, mas gostava de ser como os outros rapazes, que o desprezam precisamente por se dar com os mais velhos e por ser enfezado. Na taberna canta canções ordinárias que lhe foram ensinadas pelos adultos, que, quando se fartam de o ouvir, lhe batem. Faz tudo isto «para dissipar a solidão».
Um dia, após roubar uma pistola a um marinheiro alemão, acaba por ir parar a um grupo de resistentes, que o tratam razoavelmente, mas que ele provoca como provocava os homens que frequentavam a taberna do seu beco.
Este destacamento, que adopta Pin, é muito especial, pois é formado por elementos desgarrados e pouco conhecedores da razão pela qual lutam.
Só o comissário Kim percebe, uma vez que o facto de estarem juntos é da sua responsabilidade. Aliás este comissário é uma espécie de psicólogo que vai estudando os homens e que para isso cria as situações para analisar os comportamentos dos resistentes. Este comissário pode até reflectir a passagem de Italo Calvino pela resistência, onde como partigiano terá tido oportunidade de analisar comportamentos e motivações.
Em resumo: Pin é uma criança perdida, tão depressa adoptada como abandonada, num mundo de adultos; pode ser mesmo, em alguns momentos, metáfora da própria Itália que não sabe bem se será melhor colaborar com os alemães – nota-se a sedução exercida pelas fardas e são apresentadas personagens que ora lutam por um lado ora pelo outro – ou combatê-los.

Nota: É uma obra muito diferente de Palomar, embora já se possa vislumbrar uma grande capacidade de problematizar o mundo e deixar no ar muitas interrogações.


CALVINO, Italo. O atalho dos ninhos de aranha. Portugália Editora (Coleção: O livro de Bolso. N.º 3).
 


sábado, 28 de setembro de 2013

Palomar, de Italo Calvino



O livro é composto por vários segmentos, aparentemente sem grande coesão. Estes, tal como consta da nota final, dividem-se em predominantemente descritivos, narrativos ou meditativos, sendo que todos incluem as três vertentes.
O sr. Palomar, nome motivado pelo observatório homónimo em San Diego, Califórnia, observa o mundo que o rodeia: objetos, animais, seres humanos.
O sr. Palomar vai interrogando as suas observações e os seus pensamentos sobre elas. As várias hipóteses que lhe são presentes não resolvem os problemas em causa.
Há momentos em que decide restringir-se ao observável:
«Mas talvez seja exactamente essa desconfiança em relação aos nossos sentimentos que nos impede de nos sentirmos à vontade no universo. Talvez a primeira regra que me devo impor seja: ater-me ao que vejo.» (p. 47)
Outras vira-se para dentro de si ou tenta colocar-se fora si para se observar, como na velha perspectiva de alguém que está à janela a ver-se passar a si próprio.
Vezes há ainda em que os automatismos civilizacionais levam a melhor sobre as suas intenções, como, quando, depois de esperar algum tempo para ser atendido numa loja de queijos em Paris, e aproveitando o tempo de espera para tentar dominar a nomenclatura dos espécimes expostos, acaba por pedir o óbvio, o que os turistas pedem, e não aquilo que pensava ter de experimentar. (p. 79-82)
No fim, há pelo menos duas mensagens interessantes: primeira, antes de se ter quaisquer pretensões a conhecer o mundo / universo, “conhece-te a ti mesmo”; segundo, provavelmente quando alguém tentar ser de tal modo isento que só lhe reste fazer de morto, morrerá.
Sumariando, o sr. Palomar não é totalmente objetivo, mas tenta sê-lo, só que enferma de uma tendência insuperável para problematizar o que vê, o que pensa que vê, o que pensa que pensa… Assim, todas as suas observações resultam em paradoxos. Ele acaba desiludido, porque, quando julga que poderá ter captado o essencial do problema e vislumbrar uma explicação compreensiva do funcionamento do mundo, vê que está perdido.

Uma outra vertente a explorar é a crítica a vários aspectos da nossa sociedade, que está disseminada pelos vários segmentos.
Por exemplo:
Renúncia ao saber livresco: Ao observar Júpiter «…tem de permitir à sua imaginação que se dispa das roupagens que não são as suas, que renuncie a exibir um saber livresco.» (p.47).
Às maleitas das instituições públicas e aos que delas vivem: falando sobre os pombos «…uma progénie degenerada e imunda e infecta que não é doméstica nem selvagem, mas que está integrada nas instituições públicas e, como tal, é inextinguível.» (p. 59)

O livro é interessante de ler, mas não fácil, principalmente se se investir em compreender todos os problemas que o autor nos coloca, através das observações do sr. Palomar. As descrições são muito interessantes e de uma incrível minúcia. É um livro para muitas leituras. Impossível esgotar o seu sentido com uma só leitura.

Nota: As páginas referem-se à edição da Teorema, 2009.