Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

DIÁLOGOS POÉTICOS (2)

DIÁLOGOS POÉTICOS
A PROCISSÃO
PROCISSÃO

Nas ruas da nossa aldeia
Vai passando a procissão:
Tamborileiros à frente,
E logo atrás o pendão.

Mordomos da confraria
Levam os anjos p´la mão;
Muito grave, o juiz da festa
Dá ordens ao sacristão. *

Há colchas pelas varandas,
Alfazema pelo chão.
Lá vêm agora os andores,
Ricos andores que são!

O pálio é todo de seda;
Mete latim e sermão.
Parabéns, senhor Vigário,
A Festa faz um vistão. *

Adolfo Portela (1866-1923)

(*) Marcha musicada por Tomaz Borba (in “Toádas da Nossa Terra”, Lisboa, 1908 (p. 25)):

Procissão assim
Tão linda não há!
A música atrás.
Trá-lá-rá – Tachim! Tachim!
E há foguetes pelo ar,
Às dezenas, a estalar;
Zás-pás-trás!
Zás-pás-trás!
Zás-pás-trás!

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

António Lopes Ribeiro (1908-1995)
Camões, como era usual no seu tempo, utilizou a estética da imitação para superar.
Aqui também parece ter acontecido o mesmo. António Lopes Ribeiro (neste poema valorizado(?) por João Villaret) teria, presumo, conhecimento do poema de Adolfo Portela, mas escreveu uma composição com outro fôlego.



quarta-feira, 16 de maio de 2018

NATAS DO CÉU, Maria Laranjeira e Ana Gentil

SUSPIROS

Batem-se as claras em ponto de nuvem
e juntam-se algumas lágrimas
de final de tarde.
Enquanto o fogo arde,
suspira-se suavemente,
para não tornar a massa pesada.
Depois reparte-se esta
em pedacinhos etéreos,
que vão ao forno
em forma untada ao de leve,
e espera-se pacientemente
que façam crescer água na boca
para melhor se dissolverem
no imaginário.
Consomem-se com o nascer da lua,
sem deixar arrefecer.


LARANJEIRA, Maria; GENTIL, Ângela. NATAS DO CÉU: Poesia de comer e chorar por mais. (p. 87).
Para quem ama a culinária, a degustação, a destrinça de sabores, um livro bem temperado de um erotismo contido, mas assumido.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

DIÁLOGOS POÉTICOS?!



RUY BELO 1933 - 1978
LUZ VIDEIRA

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

In Aquele Grande Rio Eufrates.


Espera

Ainda o pardal
Solta o seu canto a medo,
Mas já no ondular
Do arvoredo
Eu vi o despertar de um cio novo.


Também meu corpo todo
Por ti espera.


Quando vens, Primavera!


In Maré Cheia. Ed. autor, 1970 (p.18)

Aparentemente Ruy Belo dialoga com a primavera que está a chegar. Há, no entanto, um tu que ama o eu no poema. E o título do poema é deveras intrigante.


Como no poema de Ruy Belo é um pássaro que anuncia a Primavera.
Mas aqui há um apelo direto à fruição da vida e à consumação do amor.

MIGUEL TORGA  1907 - 1995
LUZ VIDEIRA

São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

in "Diário IX"

Galafura – São Leonardo

Não sonhei,
Vi.
Morava ali a Beleza
Nua, inteira,
Reino de assombro,
Sonho sem fronteira.

In As quatro estações. Atlântida, 1973 (p.17)


Miguel Torga canta-nos São Leonardo ao leme de um navio de pedra, a montanha, que se desloca muito lentamente do cais humano em direção ao cais divino, lavrando as ondas chãs de um rio de mosto de vinho fino, dito do Porto.


Luz Videira, no mesmo lugar, realça principalmente a assombrosa beleza do miradouro natural, enfatizando a experiência através do verbo ver em oposição ao sonhar. Mas acaba  sonhando…


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

UMA EXISTÊNCIA OUTRA, Isabel Maia



No passado domingo foi apresentado o livro de poemas em epígrafe.
A poeta, depois de adiar por várias décadas a publicação desta coletânea, decidiu agora separar-se destes poemas, em constante aperfeiçoamento, e dá-los ao público.
A poesia de Isabel Maia surge muito marcada pelo percurso existencial, em que a solidão, a dor e a erosão que o tempo provoca são temas predominantes. Os poemas remetem aparentemente para momentos relevantes da sua vida, no entanto, como é sabido, uma coisa é a vida escrita e, naturalmente, outra a vida vivida.

Com a autorização da autora, eis dois dos poemas, seguidos de breves comentários:

A solidão é um local desabrigado

A solidão
é um local desabrigado

que altera o voo das aves
e a cor das violetas

A solidão, considerada em abstrato, não altera nada. No entanto, para a pessoa que está só tudo poderá ser alterado. Veja-se que o eu poético, para exemplo desse estado alterado, escolheu o céu e a terra, o alto e o baixo, o animal e o vegetal: dois dos seres mais belos que o nosso mundo produz. Note-se ainda que o único abrigo que poderá existir é a terra, pois o céu também é desabrigado, fatalmente as aves terão de pousar. Talvez na haste de alguma flor, e essa união da ave com a flor dissolva a solidão.


Com os cotovelos da alma

Com os cotovelos da alma
apoio-me na varanda do 6.º andar

Pedaços de vida lá fora

da mulher que apanha cenouras
para um avental
do homem sem idade que apanha lixo
para uma saca velha
dos doentes que passeiam as dores
nos jardins do hospital

saudades cá dentro

o vidro partido daquela janela
continua à espera que o vão lá trocar
janelas nuas tinta descascada
roupa pendurada

Morava ali uma mulher
que se lançou no ar à procura de paz

Vai chover
Papéis rodopiam folhas rodopiam
no chão pardacento
o homem da saca
a mulher das cenouras
os pés dos doentes
os papéis e as folhas
todos partiram

Só eu fiquei
contigo na alma
contigo na chuva
no chão pardacento
nas folhas que giram

na tarde que morre

Poema construído a partir de fragmentes significativos do que o eu poético vê a partir de uma janela alta e daquilo que esses «pedaços de vida» evocam.
A apresentação de todas as pessoas referidas como tendo partido, as pinceladas que apresentam a vida da cidade como desumana, podendo mesmo culminar em suicídio, ou ainda a feição outonal da natureza fazem o sujeito poético pensar, quase de forma circular, nas saudades referidas no início e na ideia de finitude, de morte.
Uma pergunta ainda: Quem é ou o quê é o «tu» interpelado por «contigo»?

Sobre Isabel Maia transcreve-se da badana:

«Isabel Maia
na Escola, no Liceu, na Universidade de Coimbra, onde completou a licenciatura em Filosofia, e deixou a meio a de Jornalismo,
nasceu em Coimbra, cidade que sempre levou no coração para onde quer que fosse,
paisagens, todas, especialmente as literárias,
desde pequena que escreve, em folhas dispersas, ou em cadernos que perde,
é, sobretudo, na poesia que se revê, como um modo de ser e respirar,
daí, este livro, com décadas de atraso.»


MAIA, Isabel. Uma existência outra. Palimage, Coimbra, 2016.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DIÁRIO DE UMA FLOR, Maria Augusta Ribeiro



Este livro, conforme o  próprio título indica, é apresentado como se fosse o diário de uma flor, uma rosa – naturalmente é símbolo de mulher. Desde o seu projecto de aparecimento até à sua morte, ao seu desaparecimento. Obteve o Prémio de Revelação do Concurso de Poesia S.N.I. 1966.
Escritores há de que dificilmente ouvimos falar, ou porque não se notabilizaram, ou simplesmente porque muitas vezes outros vultos coetâneos os obscureceram. Ainda assim a autora escreveu também: Suavidade, 1950 e Litoral do Sonho, 1957.

Reproduzo um dos poemas mais pequenos:

…De que cor serei?

Faz-me sofrer um pouco esta ansiedade…

Serei branca?…

Pálida?…

Vermelha?…



Quero

Quero ser  vermelha!

RIBEIRO, Maria Augusta. Diário de uma flor. Edições Panorama, 1968. (p.11)

quarta-feira, 2 de março de 2016

O RUMOR DAS MÁQUINAS, Rui Miguel Fragas




Rui Miguel Fragas é pseudónimo literário de Fui Féteira. O autor nasceu em 1964, em São Miguel de Poiares, distrito de Coimbra. Naturalmente o pseudónimo escolhido mantém o seu nome próprio e vai buscar os outros dois à sua terra natal, na qual abundam topónimos relacionados com fragas. É professor de Filosofia e homem de teatro, tendo sido co-fundador do Pateo das Galinhas – Teatro de Bico, sediado na Figueira da Foz.

Este é o seu terceiro livro publicado. Os dois anteriores foram publicados em 2014 e 2015, respetivamente O NOME DAS ÁRVORES e NÃO SEI SE O VENTO, ambos pela Poética Edições.
Com este novo livro, apresentado na Figueira da Foz em 27 de fevereiro pp., obteve o prémio Aldónio Gomes, patrocinado pela Universidade de Aveiro. Esta obra foi ilustrada pela atriz do Pateo Jovem, Sofia Perié Barros, inspirada nos desenhos de máquinas de Leonardo da Vinci.
Usa uma linguagem fresca, ainda que marcada por uma estruturação complexa e algo críptica: frequentemente com conceitos paradoxais. Os poemas vivem muito de ritmos e sonoridades bem conseguidas, que ressaltam à primeira de uma leitura em voz alta, como deve ser lida toda a poesia.
Aqui fica um exemplo:

Com o cérebro nas mãos
o bibliotecário contempla os livros que erguem as paredes do mundo:
livros que se abrem para outros livros que se abrem em direção a um
sentido que se oculta. O cérebro do bibliotecário

é uma composição de máquinas em perpétuo movimento, uma
máquina no interior de outras máquinas

a roda lenta de uma máquina imóvel sobre o quadriculado da alma, o
eixo de uma roda por entre as linhas cruzadas das mãos. E a biblioteca
é um espaço finito de livros infinitos,

o incompleto alfabeto do pensamento, a prometida e improvável
enciclopédia

e cada entrada é o inicio e o fim de um percurso que se estende mais
para além, a serpente eterna das palavras a sibilar grafias novas de
antigas ideias

porque é uma e una a língua que é bífida e o rosto de uma folha é
o verso de outra. Sopra lá longe uma linguagem universal

a sombra fugaz do que nunca será dito e ainda assim nunca deixou de
se dizer. Sopram reminiscências de todos os livros, retalhos

dos livros queimados nas fogueiras dos tempos

dos livros proscritos e enterrados nos túmulos de todos os homens
proscritos

e de pergaminhos e tábuas e manuscritos
que foram caminhos

e agora são pó dos caminhos

por entre a aragem dos livros que um dia serão escritos e dos que
nunca o serão, rascunhos de fundos alicerces fortuitas metamorfoses e
ruínas futuras

e livros só sonhados, essa matéria palpável e verídica que une o
mundo e o estilhaça

e lógicas e fórmulas que serão escritas por homens e máquinas à
superfície da lua e que se perderão no espaço e se encontrarão algures
para se voltarem a perder

e os últimos poemas, límpidos e obscuros, que os últimos homens
escreverão sobre a areia dos desertos do futuro.

Cruzam-se causas que são efeitos, peixes com lagos por dentro, flores
e frutos a dizerem árvores inteiras. Os labirintos são o centro dos
labirintos

porque é no centro que se descobre a lonjura do centro. Cruzam-se
tempos e seiva e espaços no quadriculado da alma

cruzam-se caminhos
e sangue e palavras nas linhas das mãos que seguram ainda o cérebro do
bibliotecário

ainda a contemplar os livros que erguem e derrubam as paredes do
mundo.

Notas:

Veja-se a analogia do título com a expressão, quase lugar-comum, “com o coração nas mãos”. Instaura a lógica da razão em detrimento da da emoção. Segue-se a constatação de que o cérebro é a máquina perfeita (aquela com que todos os engenheiros sonham): máquina de máquinas feita, em perpétuo movimento que roda, gira, move-se, mas sem atrito, sem desgaste: “imóvel sobre o quadriculado da alma”.

A biblioteca que apesar da destruição de bibliotecas, bibliotecários. ou de livros individuais, que apesar sua finitude, ainda assim remete para o infinito… e os livros que alberga, protege, colecciona são capazes de derrubar paredes e, paradoxalmente, a palavra é mais duradoura do que a pedra (em que muitas vezes foi escrita).

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A SEDE DA PALAVRA, de Cândido José (Tavares da Silva Baptista) de Campos

Este não comento, nem a razão por que o escolhi.





MANIFESTO


Nada tenho de novo que vos diga
Pois tudo foi já dito antes de mim
Resta-me dizer não em vez de sim
Quando surgir um sim que se desdiga.


in A Sede da Palavra, Cândido José de Campos. Ed. de Autor, 1982
Autografo. Lisboa 1982

Outras obras do autor:
Não quero os trinta dinheiros, 1980
D. Quixote vem a pés, 1981
Preciso de linho novo, 1982 

domingo, 17 de maio de 2015

Poemas de amor e não, Sérgio Paulo Silva (1950)



POEMA DE SEMPRE

Escreverei o meu amor a giz para iluminar as paredes solitárias.
Egito Gonçalves

Escreverei uma jarra bordada de flores e insectos
Para iluminar as horas mais nuas
Os vidros Os metais Escreverei uma anémona
Para iluminar os versos mais gelados
Um nome Uma esperança
Escreverei o meu amor a giz
Para iluminar as paredes solitárias


POEMA FRUGAL

As horas
quebram-se
nas veias
e enchem
de estilhaços
o coração.

Da contracapa: «Sérgio Paulo das Neves Rodrigues da Silva dá testemunho, em Poemas de Amor e Não, de propostas tensas dum canto intranquilo e ácido, que desfibra a selva em que habitamos, disfarçados e sombrios…
Poesia estranhamente exacta e distante, ela reflecte um pensar que se vai modelando e lança mão de operações onde um lirismo contundente e uma angústia impetuosa esbatem as barragens desencantadas de um convencionalismo e dum parentalismo pátrio.»
José de Matos-Cruz

SILVA, Sérgio Paulo das Neves Rodrigues da. POEMAS DE AMOR E NÃO. Livros sem editor, n.º 2. 1971

domingo, 1 de março de 2015

HALO DO EQUINÓCIO, Santiago Prezado



João Maria Sant’Iago-Prezado (1883-1971)

Poeta figueirense, republicano e democrata, contemporâneo de Teixeira de Pascoaes, João Lúcio, Augusto Gil, João de Barros, Afonso Duarte… editou o seu 1.º livro, Primeiros Versos, em 1902, e Halo do Equinócio (Ilustrado por Figueiredo Sobral), que é o seu último, em 1959.
Colaborou nas revistas Atlântida, Águia e Seara Nova.
A Câmara Municipal da Figueira da Foz, no centenário do seu nascimento, editou Antologia de Circunstância que ficara inédita.

Outras obras:
Doze canções d'amor d'o livro do amor e da natureza, 1914
Entre a folhagem, 1924
Livrinho memorial, 1925
Auto dos Pastores Brutos, 1926
Avto da pastora perdida e da velha gaiteira, 1944
Joaninha dos olhos verdes, 1946
Hespéride, 1946
Pelo verde pinheiral florido : ai flores, ai flores do verde pyno, 1948
D'a roda dos meses d'A horta do mestre gil e mais, 1951
Removendo os cadáveres : impressão de outono nos parques de Vichy, 1951
O pinhal das dunas : é a luta heroica entre o pinhal e as dunas!, 1953
Portal do Estio, 1988 (Ed. póstuma)



Eis dois poemas de Halo do Equinócio:

AS ANDORINHAS E OS TORDOS

TEMA DA TRADIÇÃO POPULAR
MAL do Outono é a quadra anunciada
as andorinhas partem de abalada.

Partem levando toda a criação
dos filhos que cá nasceram,
com o quê assim os bandos mais cresceram;
c atravessando o mar todas lá vão.

Mas quando elas se vão, os tordos vêm
da sua viagem também;
mas esses menos que quando abalaram,
pela grande caçada que lhes deram
naquelas terras lá por onde andaram.

E ao cruzarem-se os bandos a voar,
gritam as andorinhas lá do ar:

Donde vindes, tordos loucos,
que fostes tantos e vindes poucos?

E perguntam-lhes eles sem parar:

Donde vindes, andorinhas,
que fostes poucas e tantas vindes?

E assim ao seu destino cada bando,
por sobre o mar lá segue voando...
voando. .

DIAS VIRÃO


            DIAS virão,
em que todos os bens exteriores
te darão só temores
e ao teu espírito a inquietação.

            Dias virão,
em que todas as tuas falsas glórias,
como falsas que são,
por tais as tomarás, e transitórias.

Dias virão,
em que os fúteis prazeres que sentias
gozo te não darão,
vazios dele a alma e esses dias.

Dias virão,
em que as mundanas cousas, ao redor
do teu cansaço delas, deixarão
dentro de ti um vácuo ainda maior.

            Dias virão,
em que uma íntima voz perguntará
à tua própria razão
o que de bom e de útil deixas cá.

Dias virão,
em que um só bem te pode aproveitar;
e perdido o terás sem remissão
se o não soubeste ganhar.

Dias virão,
em que através a frágil contingência
de tudo a ti postiço, e inglório, e vão,
te acharás só com tua consciência.

Dias virão,
em que, volvendo atrás o teu olhar,
seu veredicto escutarás então
ou para te absolver, ou condenar.

Dias virão,
em que o passado, neles revivido,
te dará a moral avaliação
do que ganhado tenhas, ou perdido,

Dias virão,
em que, sem mais consolo nem escudo,
vendo que os bens de ti todos se vão,
se esse, interior, não tens, perdido é tudo!

Biografia:
Colóquio Letras, n.º 92, julho de 1986.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

CAIPIRAS DA MINHA TERRA, Jurandyr Aguiar



Nas minhas deambulações pelas feiras de velharias encontrei um pequeno livro de poesia que me suscitou interesse apenas pelo facto de apresentar uma dedicatória do autor, sendo que esta é de 1972 e o livro é de 1957.

Não sabia o significado de caipira, para além do que se podia intuir de uma canção que diz “Sou caipira pira pora…” Fui ver. Significa então, segundo o dicionário da Porto Editora, “Que ou quem mora no campo, na roça.”
Comecei a ler os poemas e fiquei deslumbrado com a beleza da linguagem que, naturalmente, é a dos caipiras. Aparecem várias palavras que me lembra de ouvir aos meus avós e que hoje, aqui em Portugal, ninguém diz.
Os poemas são pequenas hostórias de uma vivência rural: uma delícia. Para além de um lado jocoso, apresenta uma vertente crítica muito marcada. Malícia, inveja, incompreensão, homens farristas e mulheres escravas…

Aqui fica uma das composições que  brinca com a consciência de que o caipira sabe que fala um português arrevesado. (p. 88-90)

PRU MOR-DE A MANIA

"- Já oviu falá no cachorro
Do Nho Juca, não, Trindade,
Que sírre quano êle manda?
Pois ói, é a pura verdade.

É só Nho J uca mandá,
E o dianho do cachorrinho
Sírre que dá gosto vê
Êle amostrá os dentinho!

Mai, otro dia, Don' Ana
(Que ocê sabe, é munto prosa,
Só pru que é porfessora)
Sôbe disso, e, de curiosa,

Mandô dizê pra Nho Juca
I na escola da fazenda,
Mai que levasse o cachorro:
Queria vê a "tar" prenda!

Nho Juca foi. E o cachorro
Feiz na escola um figurão!
Quem não gostô foi Don' Ana,
Pru que ficô cum carão…

Nho J uca falava: - Sirra,
E o cachorrinho sirria.
Don' Ana falava: "Ria"
E êle nem se mexia!…

A porfessora Don' Ana
Tem um modo de falá
Que a gente, ar-vêiz, num intende,
Quanto mai os alimá.

E é pru mor-de a mania
De istudá francêis, ingrêis,
Que essa gente da cidade
Fala má o portuguêis!"


AGUIAR, Jurandyr. CAIPIRAS DA MINHA TERRA. Edição de Autor. Impresso por Ind. Gráfica Bentivegna, São Paulo)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

ANTOLOGIA POÉTICA, Carl Sandburg



Carl Sandburg (1878-1967, de ascendência sueca, nasceu no Illinois.
Desde os treze anos que desempenhou as mais diversas tarefas e profissões, foi pau para toda a colher: distribuidor de leite, pedreiro, trabalhador rural, porteiro de hotel, carvoeiro, jornalista, escritor premiado… Chegou a estudar quando, cumprindo o serviço militar, esteve em West Point, mas teve de deixar pois chumbou os exames de Gramática e Matemática. Mais tarde entrou na universidade mas abandonou em 1903 sem qualquer diploma.
Depois de se casar teve casa em várias localidades, entre as quais na zona suburbana de Chicago, que aparece frequentemente nos poemas deste livro.

Sandburg escreveu livros infantis, uma biografia de Abraham Lincoln, poesia…, tendo ganho três prémios Pulitzer.

Nota bibliográfica baseada principalmente na apresentação feita por Louis Untermeyer e na autobiografia incluídas como prefácio deste livrinho.

Apresenta uma poesia do dia a dia, muito mordaz, em que valoriza pequenas coisas, factos, histórias, com uma vertente de crítica social muito acentuada.
Transcrevem-se dois poemas:

SOPA

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.

SOUP

I saw a famous man eating soup.
I say he was lifting a fat broth
Into his mouth with a spoon.
His name was in the newspapers that day
Spelled out in tall black headlines
And thousands of people were talking about him.
When I saw him,
He sat bending his head over a plate
Putting soup in his mouth with a spoon.

Longe vai o tempo em que a poesia era vista como a expressão dos sentimentos, muitas vezes amorosos, de um “eu”, veiculados através de uma linguagem elevada e respeitando rima e métrica.
Ainda assim, este contar a “vidinha” revela muito interesse e grande intervenção social.
Afinal que é ser famoso? Que faz um homem famoso diferente dos outros?
No poema acima, este famoso é até descrito de forma negativa, comendo o caldo gorduroso com uma colher, como qualquer outra pessoa, mas com o queixo enfiado no prato.

No poema abaixo, uma das constatações mais importantes é a efemeridade da vida humana e mesmo dos materiais construídos pelo homem. Sobressai também o contraste entre o pensamento que se pretende profundo do poeta com o homem que é interrogado. Naturalmente para este último o seu destino era o local para onde se deslocava, enquanto que para o inquiridor se tratava do destino de tudo o que existe.

RÁPIDO

Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançadas através da pradaria, na névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
“Omaha”, responde.

LIMITED

I am riding on a limited express, one of the crack trains of the nation.
Hurtling across the prairie into blue haze and dark air
go fifteen all-steel coaches holding a thousand people.
(All the coaches shall be scrap and rust and all the men
and women laughing in the diners and sleepers shall pass to ashes.)
I ask a man in the smoker where he is going and he
answers: "Omaha."


SANDBURG, Carl (Seleção e tradução de Alexandre O’Neill). ANTOLOGIA POÉTICA - Tempo de Poesia n.º 4. Edições Tempo, circa 1961.