O Pedro Penilo e a Cooperativa Teatro dos Castelos dinamizaram há uns anos um blogue denominado "O Logro das Rosas, Pão Ensebado". Como na altura escrevi uma pequena participação, transcrevo primeiro o texto do Pedro e depois o meu.
O “Milagre das Rosas” faz parte do meu arquivo de memórias tristes nos tempos da escola primária, das narrativas pseudo-históricas de J. H. Saraiva e do fascismo português.
O convite para participar na série de intervenções de arte urbana “Circuito das Fachadas – Outra Margem”, promovida no âmbito das Festas da Cidade de Coimbra, obrigou-me a tomar consciência de antiga suspeita, latente e difusa, guardada dos tempos de infância: a lenda – como todas as lendas, instrumento de formatação ideológica – esta lenda era, até para uma criança, profundamente amoral e inquietantemente actual no espelhamento dos vícios e perversões estruturantes da classe dirigente e elites do nosso país, ao longo da sua história.
“Outra Margem” tornou-se então para mim a outra versão, valores mais dignificantes, outros projectos para um povo celebrar. Coimbra, uma das mais antigas cidades da Península Ibérica, e a sua Universidade, das primeiras na Europa, merece ser representada por outras narrativas, símbolos e um imaginário de sabedoria, coragem e responsabilidade.
"ZUGSWANG", de Vítor Silva
Ante a pávida corte, o rei trovador faz a sua muda: xeque à rainha branca.
– «Senhor fremosa e do muj loução / coraçon», que levais nessa abada?
(Os cortesãos suspendem a respiração.)
– São rosas, Senhor, são rosas!
– Cavaleiros, bispos e castelões teimam que é pão para peões.
Abre-se o regaço. (O cortês público ovaciona eufórico, clama milagre.) Perde o poeta o pé. Ai! Pica-se nos espinhos do ludíbrio da razão, do logro da coerência.
Fora outro o conteúdo do avental, baniria Denis (gr. Diónysus) a santa e real consorte?
Xeque-mate!
Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária. Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
GUERREIRO, Luís, Guia de Salto, Centelha, Coimbra, 1974
Teoria da história
O alfaiate
a padeira
o almocreve
Se discursam
com o povo
por ouvinte
o rei tem
uma espada
a rainha
uma esmola
que os farta
e degola
Nota: Encontra-se uma pequena referência a Luís Guerreiro aqui.
O alfaiate
a padeira
o almocreve
Se discursam
com o povo
por ouvinte
o rei tem
uma espada
a rainha
uma esmola
que os farta
e degola
Nota: Encontra-se uma pequena referência a Luís Guerreiro aqui.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
HORTA, Maria Teresa, Educação Sentimental, 1975
SAYLOR, Steven, Sangue Romano – Um mistério na Roma antiga, Quetzal, 3.ª ed., 2000.

Para quem goste de romance policial o livro não desilude, do ponto de vista histórico não estou tão seguro, no entanto não há dúvida que o autor investigou o período em que situa a acção.
A história é longa, mas não é cansativa. A extensão é mitigada por uma boa técnica narrativa que prende o leitor ao confrontá-lo com várias peripécias.
Apreciei especialmente dois pontos:
Toda a intriga política faz dos nossos políticos autênticos meninos de coro.
Nota: O advogado de defesa do caso à volta do qual é construída a narrativa é nem mais nem menos do que Marco Túlio Cícero (grão-de-bico).
A figura do detective privado, o descobridor, que apresenta muitas das características de detectives célebres. Não as capacidades dedutivas do belga de Agatha Christie, mas a persistência canina dos heróis de, p. ex., Raymond Chandler, Mickey Spillane.
Retive, a diferentes níveis, duas pequenas pérolas:
Um eufemismo: “Todos nós sabemos que Sula lança as suas redes para os dois lados do barco.”p.73 (=Tanto procura relações com mulheres como com homens.)
A diferenciação entre ordenado e despesas: “Afinal, tenho uma conta para essas despesas com o teu senhor.” p.113.
A imagem do autor encontra-se em http://www.wook.pt/Authors/detail/id/8182.
Nota: Há também uma edição da Bertrand de 2008.
sábado, 26 de dezembro de 2009
A Duas vozes (The Double Tongue), William Golding

Notas sobre o autor:
Prémio Nobel de 1983. Romancista, poeta e dramaturgo britânico, viveu entre 1911 e 1993. Apresenta uma concepção pessimista da natureza humana, dominada pela violência, o medo e a ânsia de poder.
Obra:
O Senhor das Moscas; Os Herdeiros; Queda Livre; A Pirâmide; A Escuridão visível.
Temas / Problemáticas:
Existência de Deus.
Cegueira humana.
A aspiração política e suas consequências. (Ânsia de poder)
Desmistificação dos oráculos.
Narrador: Autodiegético. Arieka narra a sua história, incluindo uma longa analepse.
(Relações entre as) Personagens:
Arieka – Sacerdotisa do deus Apolo, Pítia / Oráculo desde tenra idade.
Demétria – mãe de Arieka (Figurante)
Iónides Pisistrátides – Sacerdote de Apolo e encarregado geral da Fundação que gere o santuário de Delfos.
Estrutura:
A história é narrada cronologicamente mas com recursos a uma longa analepse na parte inicial, para contar a história da infância e juventude da protagonista, Arieka. Há também a afirmação de que falta um trecho do manuscrito (fim do cap. IV), quer por uma questão de necessidade de não incluir informação que poderia ser esperada, pois a presente história tem um editor, uma vez que é publicada postumamente a partir de esboços do autor.
Referências histórico-temporais: Num tempo em que a Grécia estava já sobre o domínio dos romanos, mas antes da ascensão de Júlio César, uma vez que é uma das perguntas que é feita à Pítia.
Resumo: Uma jovem grega é escolhida para exercer o cargo de oráculo do templo de Delfos. Deveria ter passado por uma longa aprendizagem até estar pronta para exercer a arte devinatória, mas a morte da mais velha das Pítias, seguido da morte inesperada da segunda Senhora, faz qom que ela tenha de exercer a função para que fora escolhida pelo Sacerdote de Apolo, muito jovem ainda.
Recursos de estilo e linguagem predominantes
A linguagem é bastante simples, corrente e às vezes mesmo familiar. Nota-se alguma adjectivação expressiva: v.g. Era esguio, irrequieto e macilento. (p.25); «Houve uma vez em que examinei o medo. Era redondo, maciço e pesado…» (p. 72). Muito discurso directo, e interrogações. Algumas enumerações: v.g., «Tudo por um ponto, um epigrama, um paradoxo, um bom apotegma… » (p. 41). Ocasionalmente um quiasmo: «Havia qualquer coisa, realmente uma coisa qualquer.» (p.45). Eufemismo: «Estou em crer, porém, que dentro de um mês podemos ver a primeira fascinante borboleta de primavera, há sempre umas quantas precoces» (=turista) (p. 69).
Apreciação / Reflexão:
Interessante:
«–Latim – disse Iónides. – uma língua com demasiada gramática e nenhuma literatura.» (p. 69).
«Os Hebreus, por exemplo, e os Romanos. Os seus funcionários públicos, ou pelo menos uma boa parte deles, nunca praticam nem aceitam subornos. Muitas vezes até um homem rico é condenado pelos tribunais. É muito frequente um pobre sair em liberdade. Não vêem que onde todos os homens aceitam subornos e os praticam, ninguém o faz! (p.70)
«A retaguarda de uma multidão […] é onde se pode analisar um pouco a verdadeira natureza de uma relação internacional.» (p. 70)
«Tudo em Roma é tirado de vós, os Gregos, excepto, infelizmente, as coisas que os tornam vossos senhores.» (p. 107).
«…e descobriram uma cabeça de mulher decepada havia pouco, ainda a sangrar. O local ainda se chama Capitólio, o que significa o lugar da cabeça, não é verdade?» (p. 106).
«Mas eu cheguei à conclusão de que as pessoas preferem ser governadas por um bandido seu, por mais duro que o seu domínio seja, a sê-lo por um governante bom e justo que seja estrangeiro.» (p.110).
Glossário
Apotropaico (p. 76) – sinal para afastar o mal (?)
Hexâmetro (p.78) – Verso grego de seis pés.
Númico (p. 99) – Segundo o próprio livro, fantasmal (sem verbete no dicionário).
Etiquetas:
Prémio Nobel da Literatura,
William Golding
O ÚLTIMO SUSPIRO DO MOURO, Salman Rushdie

Este não é propriamente um texto de análise, é mais um género de notas soltas.
Depois de Os Versículos Satânicos, Rushdie retoma a problemática religiosa, através da história de uma família indiana com aspirações a ascendência ilustre: Vasco da Gama através de Aurora e do lado de Abraham, através de Morais Zogoiby, seu filho, o sultão Boabdil. Último de Granada; facto que dá nome ao livro, pois Morais era conhecido por Mouro. Ao longo da obra vai haver uma sobreposição entre o mouro Morais e o mouro Boabdil, aliás como em vários outros domínios, nomeadamente em relação a quadros que são pintados por cima de outros quadros: palimpsestos.
A história é narrada por Morais Zogoiby, prisioneiro de um enamorado, amante, de sua mãe, que conta a saga familiar à maneira de Xerazade para prolongar a sua vida.
O livro é um repositório invulgar de cultura- Dá-nos uma imagem caleidoscópica da Índia do séc. XX, por onde perpassa a pintura, o cinema, a literatura, a crítica severa das relações humanas: depravação, degradação… ocasionalmente de moralidade duvidosa.
Transcrevo um excerto que surpreendentemente me parece resumir a obra e o registo em que é contada a história: “…tom mítico-romântico em que se acotovelam a história, a família, a política e a fantasia, como uma multidão numa estação de comboios…”.
Por vezes as palavras do livro são admiráveis. Morais, o Mouro, conta a sua própria história interpelando esporadicamente o leitor, mas lá aparecem reflexões que serão forçosamente de uma entidade superior a um narrador autodiegético: “É o velho problema dos biógrafos: mesmo quando as pessoas estão a contar a história da sua vida, estão invariavelmente a embelezar os factos, a reescrever a história ou pura e simplesmente a inventar.” (p.169). Lembrando ao leitor que o que lê é ficção e talvez, como é sabido, que frequentemente a realidade supera a ficção.
A obra versa também sobre o amor. A esse respeito retive uma frase lapidar: “Quando um engano de coração se revela como sendo uma loucura, achamo-nos parvos e perguntamos à família e aos amigos porque é que não intervieram, defendendo-nos de nós próprios. Mas nós próprios somos um inimigo de quem ninguém nos pode defender” (p.196).
A sociedade actual impõe, a muitos de nós, estilos de vida a que dificilmente podemos fugir. Alguns superam essa tirania dedicando-se a actividades desviantes, a promover conflitos, a lutar contra moinhos de vento… outros despersonalizam-se totalmente, sendo exactamente o que os seus superiores, patrões, famílias querem que sejam. Aprecie-se esta pérola: “Estão todos mortos, tanto os velhos como os novos, mas como ainda recebem reformas e mesadas recusam-se a deixar-se enterrar. Andam por aí, rua abaixo rua acima, comem, bebem e falam das vidas horríveis que levam…” “…tinham-se tornado, por vontade própria, em autómatos humanos. Podiam simular a vida humana, mas já não eram capazes de vivê-la” (p.470-471 e 481).
Para acabar, uma referência a um dos muitos aspectos jocosos da obra, pejada de ironia: “…torturas – a privação do sono, disseção sem anestesia, cócegas prolongadas nas axilas, malaguetas metidas no ânus, surperexposição a intermináveis espectáculos de ópera chinesa.” (sublinhado meu).
A leitura das cerca de 500 páginas leva o seu tempo, mas vale a pena!
A METAMORFOSE, Franz Kafka (1883-1924)

Um jovem acorda uma manhã transformado num monstro, um insecto viscoso e achatado de pernas curtas, julgando-se vítima de uma alucinação. A família mostra-se horrorizada perante tal aberração, ou talvez por ter perdido a sua fonte de rendimento, pois era ele que provia ao sustento de todos lá em casa. O pai, a mãe e a irmã vêem-se forçados a trabalhar, a segunda em casa e os outros fora. Dão-lhe cada vez menos atenção e desejam a sua morte. Quando tal acontece desfazem-se do cadáver e exultam.
É interessante constatar que o jovem não perde nada da sua condição de humano, excepto a forma. Os seus sentimentos e pensamentos mantêm-se humanos, sendo mesmo a mais humana das personagens: faz esforços impressionantes para dominar o seu novo corpo; respeita e teme o pai; mostra-se desolado por já não poder sustentar a família; esconde-se para não causar repugnância à família e hóspedes; faz o favor de morrer quando a sua morte é desejada.
O jovem manteve-se igual a si próprio na sua nova aparência, o que é muito diferente de histórias do género fantástico em que homens se transformam em animais selvagens e violentos, perdendo completamente o controlo da sua identidade. São frequentes as transformações de homens em lobos e de mulheres em felinos.
É ainda impressionante que a metamorfose seja aceite sem ser questionada por todos os intervenientes, sem que consultem os representantes da sabedoria, padres, médicos…, para validar a possibilidade de uma tal transformação. De facto «a ciência destrói o mistério»!
Certamente que a nível filosófico esta história terá uma leitura bem diferente.
KAFKA, Franz, A Metamorfose, 2.ª ed., Edições Quasi
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