Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

UM ESQUEMA, Clara Pinto Correia


História de uma caso, um esquema[1], que garante a felicidade de um casal durante um Verão. Ambos têm os seus namorados mas envolvem-se num caso amoroso, que aparentemente ninguém sabe, mas todos desconfiam.
É interessante a estratégia de narração. Cada uma das personagens apresenta alternadamente a sua versão dos factos, numa espécie de diário. Assim os relatos dos intervenientes no esquema, os seus namorados, a dona de um café onde se encontram e o narrador de fora da história apresentam ao leitor uma visão multifacetada dos acontecimentos.
As entradas de diário, de 16 de setembro a 7 de dezembro, estão divididas em partes, pois aparece a mesma entidade a escrever com a mesma data em lugares diferentes. Apesar disso a história surge bastante límpida.
É um livro pequeno, que se lê rapidamente, mas vale a pena.
Apresenta ilustrações de Jorge Colombo.

CORREIA, Clara Pinto. Um esquema. Edições Rolim, 2.ª ed., 1985.


[1] De acordo com a definição da autora: Uma relação a que não damos grande importância, apesar de poder assumir um lugar dramático nas nossas vidas, mas sabendo-se desde logo que não conhecerá demora nem consequência.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conta-me coisas de Cuba. de Jesús Díaz



História de um dentista, Stalin Martínez, que, apanhado no desvio bem sucedido de um barco para fugir de Cuba, volta pelo amor a sua mulher e família.
Durante a breve permanência em Miami, o irmão Lenine, advogado em Cuba, Leo, agora com a muito mais rentável profissão de palhaço, não o consegue dissuadir de voltar. Então oferece-lhe compras no valor de 600 dólares, que este acaba por gastar a comprar uma maravilhosa bicicleta.
Em Cuba é recebido como um herói. Para justificar o facto de não ter trazido nenhuma lembrança para ninguém, diz que a bicicleta lhe foi oferecida pelas autoridades cubanas pela sua atitude de amor à pátria.
Quando chega a casa apercebe-se de que já perdera a mulher e, enquanto destrói vários pertences de que ela gosta ou precisa, a bicicleta que deixara bem presa à grade da casa, é roubada arrancando grade e tudo.
Desesperado, aproveita para fugir para os Estados Unidos. quando lhe é dada, omo prémio, uma saída ao México para apresentar uma conferência sobre um trabalho que não lhe pertence, mas sim à sua chefe,
Em Miami, sujeita-se a viver cerca de dez dias num terraço em casa do irmão, apenas com um bidão de água do mar e à míngua de alimentos para simular a fuga de um balseiro[1], na tentativa de conseguir o asilo político que ainda há pouco rejeitara.
É durante esses dias que ocorre a narração. Assim se torna possível misturar o que lhe está a acontecer ali, com toda a sua vida anterior, permitindo a recordação, às vezes numa espécie de delírio, de episódios da infância, relações familiares e laborais… Esta estratégia de narração revela-se muito interessante.
O romance vale sobretudo pelo retrato de Cuba, ainda de Fidel Castro, e não de seu irmão Raúl, com amplas marcas de ironia, veja-se, por exemplo, o facto de Cuba ser “um museu vivo e gigantesco”, a situação em que Fidel é para o seu sobrinho o papão com que é ameaçado, ou “Fidel Castro continuava no poder porque a sua barba era formada por dez milhões de cobardes.” (p. 50).
Naturalmente há muitas referências políticas, mais ou menos subtis, mas vale mais pelo retrato de algumas realidades que estão em vias de mudança.

Duas comparações interessantes:
“…vazio como uma tarde de domingo…” (p. 244)
“…escura como enterro de pobre…” (p. 244)

Importa, talvez, mencionar que este romance nasceu como guião cinematográfico. O livro acaba por sair por ainda não ter sido possível realizar o filme.


DÍAZ, Jesús. Conta-me coisas de Cuba. Âmbar,  2001.




[1] Balsero – Aquele que foge de Cuba num pequeno barco e que, quando consegue chegar, se apresenta com marcas de insolação e subnutrição.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

HIPÁLAGE



HIPÁLAGE: «Processo de valorização estilística que consiste na atribuição a um objecto de uma característica que, na realidade, pertence a outro com o qual está relacionado. Transposto na frase, o adjectivo aparece muito frequentemente nesta construção, ligando ao objecto uma característica moral pertencente ao sujeito (ex.:”...com um barretinho de seda enterrado melancolicamente até ao cachaço”.»

Não sendo uma entrada normal neste blogue, tem a ver com a leitura e com a fruição desta. Aqui ficam alguns exemplos deste recurso estilístico que é muito interessante e produtivo.
Grandes escritores de língua portuguesa utilizaram-no, frequentemente com muita ironia. Em relação a Eça de Queirós é referido como um dos seus traços estilísticos, Mais recentemente Lobo Antunes tem-se servido dele copiosamente.

AMADO, Jorge. Suor. Record, 44.ª ed., 1986

«...de negras que sorriam com dentes amigos.» (p. 33)
«O mendigo descia a ladeira com o passo tardio.» (p.40)


No primeiro caso as negras serão amigas e não os seus dentes, e no  segundo quem estará atrasado é o mendigo … não os seus passos.


ANTUNES, António Lobo. A Explicação dos Pássaros

«...pela porta aberta da cozinha avistava-se uma vassoura diligente a varrer os azulejos do chão.» (p. 78)
«Às sextas-feiras uma mulher a dias da tua raça corria um pano distraído e inócuo pela porcaria amontoada..» (p.95)


BAPTISTA-BASTOS, A colina de Cristal. Edições Asa, 4ª ed., 2000

«O restolhar de botas impacientes e de frases sacudidas.» (p. 148)
«Lá estava o olho vigilante, o olho turvo. Lá estava, vertiginoso, o olho atento. O olho triste, o olho lúgubre.» (p.157)


JORGE, Lídia. O Jardim sem Limites, Círculo de Leitores, 1996

«O jornalista imberbe tinha começado a tomar notas com uma caneta rápida.» (p.50)


LEIRIA, Mário-Henrique. Novos Contos do Gin. Editorial Estampa, 5.ª ed., 1999.

«- Também creio, meu general! afirmou, disciplinado e respeitoso o capitão. Puxou da pistola de ordenança e disparou um tiro correcto na nuca do general.» (p. 53).
«No alto, atrás da aresta rochosa que dominava a colina, observou discretamente, na procura preocupada do ruído escutado.» (p. 63)


MIGUÉIS, José Rodrigues. Gente da Terceira Classe

«Daí a pouco o tio, de chapéu severo na cabeça...» (p.258)
«Um galo rouquejou em voz molhada...» (p. 261)


NAMORA, Fernando. O Homem disfarçado, Arcádia, 3.ª ed.

«E João Eduardo aproveitou a pausa para ensaboar rapidamente as mãos enojadas.» (p. 157)


ORTIGÃO, Ramalho. Farpas

«- E, tendo descalçado uma das luvas azuis, comprimia com mão nervosa o alto da sua pequena cabeça de galo...»



PIRES, José Cardoso, A República dos Corvos. 1.ª ed., 1988

«O Juiz, na sua mesa solitária, ficou à espera...» (p.39)
«Estendeu uma mão distraída para o rádio e ligou.» (p. 65)





quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

DIA DE NATAL



Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

GEDEÃO, António. Máquina de Fogo, 1961




Naturalmente, este poema poderá ser encontrado em muitos outros lugares da net.
Foi escolhido não apenas por ser Natal, mas por incluir uma das mais inteligentes criticas ao mesmo.
Levanta questões importantes: Há dias para ser bom?;  Devemos convencer os nossos semelhantes a aceitar a sua situação ou ajudá-los a melhorá-la?; Há inimigos que merecem ser perdoados e outros não? ...
Para além disso é fácil perceber a crítica à hipocrisia, ao consumismo e mesmo à perversão de valores morais.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

GAIVOTA, Maria Rosa Colaço



A autora dedica o livro a todas as crianças que,como Alfredo, são símbolo de sonho e de esperança.
Conto que narra um dia na vida de Alfredo, dito Gaivota:
«Porque me chamam Gaivota?
Está mesmo a ver-se…tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão [Cacilhas], correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade  da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal.» (p. 9)[1]
Alfredo é-nos apresentado como um miúdo pobre na zona de Cacilhas. Vive ao deus-dará, fazendo de tudo um pouco, ou nada. Vive entre a raiva da sua situação e o deslumbramento da vida que o cerca.
Apesar da narração ser de terceira pessoa, passa frequentemente para o ponto de vista do próprio Gaivota, que nos interpela e é interpelado pelo narrador, em que questiona as suas memórias de um tempo mais feliz.
É a época do Natal e estamos perante uma criança desiludida, no entanto as suas reflexões produzem em nós um desejo de pensar também sobre a vida.
No final, perante a proposta de emprego como aprendiz de mecânico toda a felicidade perdida retorna, apesar da perda do pai em condições que não são explicitadas, de acossado pelo padrasto e descuidado pela mãe.
COLAÇO, Maria Rosa. GAIVOTA. Edições Nave, 1.ª ed., 1982.


[1] A alcunha vem do facto de correr sobre os pontões de braços abertos.
 


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA, Richard Zimler



Richard Zimler fala fluentemente o português, no entanto escreve os seus livros em inglês, que depois são traduzidos para a nossa língua por outrem. Isto deve-se ao facto de o autor querer manter a fluência na sua língua nativa, portanto lê, fala e escreve em inglês. Naturalmente não é despicienda a abrangência, a nível de mercado, da sua língua mãe.
É um homem versado em religião, tendo-se formado em Religiões Comparadas. É judeu, mas, segundo o próprio, não muito empenhado. Julgo ter entendido, de uma conversa sua com leitores, que será assim como que o nosso católico tradicional.
A O último cabalista de Lisboa poderemos chamar de romance histórico, pois o autor retrata com grande fidelidade os acontecimentos ocorridos em Abril de 1506. Para isso documentou-se sobre a disposição espacial da Lisboa de então, sobre alimentação, vestuário, etc. Por outro lado, parece um romance policial, pois ocorre um crime e a ação desenvolve-se na procura do culpado.
De acordo com a introdução, o autor descobre manuscritos de Berequias Zarco escritos entre 1507 e 1530 e propõe-se contar-nos o que aí leu. Esta estratégia permite-lhe transformar o escritor em narrador, ou seja, em vez de apresentar os manuscritos, assume que seleciona deles o que é relevante e que verterá o discurso no seu próprio estilo.
O essencial da ação decorre na Páscoa de 1506, durante e após o massacre de cerca de 2000 cristãos-novos, judeus que tinham sido forçados a converter-se ao cristianismo em 1497. Quando da conversão Berequias, o protagonista, fora batizado com o nome de Pedro.
Pedro Zarco é um  jovem com cerca de vinte anos que vai ter de deslindar as circunstâncias em que ocorre a morte do tio, que pelas evidências encontradas não pode ser assacada â sanha dos cristãos-velhos.
O tio era um grande cabalista e Berequias seu discípulo. É um homem surpreendentemente dotado de perspicácia e da capacidade de antever o futuro.
O seu assassino tem de ser um dos iniciados na Cabala que frequentam a cave dos Zarco, a qual, para além de lugar secreto de culto, era também onde a família exercia a sua atividade de copistas e de pintores de iluminuras de livros sagrados judeus. Aí se guardavam algumas preciosidades bibliófilas e os livros que depois de prontos eram traficados para a Europa.
À medida que Berequias / Zarco descobre o que ocorreu naquele dia fatídico, vai conhecendo melhor o seu tio, mas também vai questionando a sua própria existência e a sua relação com Deus. Percebe também que tem de deixar Portugal para garantir a continuidade da sua família e, mais surpreendente, que o seu tio antevira que o sacrifício da sua vida poderia ser o acontecimento que despoletaria e garantiria a fuga para Constantinopla dos Zarco.

sábado, 9 de novembro de 2013

O ATALHO DOS NINHOS DE ARANHA, Italo Calvino



Este é o primeiro livro do autor e foi muito bem aceite. Retrata a resistência à dominação germânica e é por alguns integrado no Neorrealismo italiano.
O romance passa-se durante o período em que Benito Mussolini governa Itália (1922-1943) e foi publicado pela 1.ª. vez em 1947, tendo o regime fascista acabado em Itália em 1945.
Pin com a sua «voz rouca de menino velho» confronta todos com quem se cruza, expondo os seus defeitos e vícios, apesar de muitas vezes ser de seguida espancado. Órfão de mãe, abandonado pelo pai, ajudante de sapateiro é um grande observador e conhece todos os podres da viela que habita. Dá-se com os grandes, mas gostava de ser como os outros rapazes, que o desprezam precisamente por se dar com os mais velhos e por ser enfezado. Na taberna canta canções ordinárias que lhe foram ensinadas pelos adultos, que, quando se fartam de o ouvir, lhe batem. Faz tudo isto «para dissipar a solidão».
Um dia, após roubar uma pistola a um marinheiro alemão, acaba por ir parar a um grupo de resistentes, que o tratam razoavelmente, mas que ele provoca como provocava os homens que frequentavam a taberna do seu beco.
Este destacamento, que adopta Pin, é muito especial, pois é formado por elementos desgarrados e pouco conhecedores da razão pela qual lutam.
Só o comissário Kim percebe, uma vez que o facto de estarem juntos é da sua responsabilidade. Aliás este comissário é uma espécie de psicólogo que vai estudando os homens e que para isso cria as situações para analisar os comportamentos dos resistentes. Este comissário pode até reflectir a passagem de Italo Calvino pela resistência, onde como partigiano terá tido oportunidade de analisar comportamentos e motivações.
Em resumo: Pin é uma criança perdida, tão depressa adoptada como abandonada, num mundo de adultos; pode ser mesmo, em alguns momentos, metáfora da própria Itália que não sabe bem se será melhor colaborar com os alemães – nota-se a sedução exercida pelas fardas e são apresentadas personagens que ora lutam por um lado ora pelo outro – ou combatê-los.

Nota: É uma obra muito diferente de Palomar, embora já se possa vislumbrar uma grande capacidade de problematizar o mundo e deixar no ar muitas interrogações.


CALVINO, Italo. O atalho dos ninhos de aranha. Portugália Editora (Coleção: O livro de Bolso. N.º 3).