Notas de algumas leituras, sem pretensões de crítica literária.

Seleção de alguns poemas, com ou sem comentários.


sábado, 31 de agosto de 2013

O VERÃO DE 2012, Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013



Sobre o autor transcreve-se a nótula incluída no Centro de Estudos Sociais –

Laboratório Associado da Universidade de Coimbra:

“Paulo Varela Gomes nasceu em 1952, é licenciado em História, mestre em História da Arte e doutorou-se em História da Arquitectura. É professor da Universidade de Coimbra. É professor e conferencista convidado de várias Universidades portuguesas e não-portuguesas.Foi representante da Fundação Oriente na India (em Goa) em 1996-1998 e em 2007-2009. É autor de vários artigos e livros nas suas áreas de especialização. Foi durante muitos anos crítico de arquitectura e arte. Foi autor e apresentador de documentários de televisão. É cronista regular da imprensa.”

Ao contrário de outros que defendem que não há coincidências, este livro está cheio delas:
O autor, o psiquiatra e o paciente, P., todos nomeados pela letra «p», parecem ser várias facetas da mesma entidade;
P. encontra várias semelhanças com o presente e com a sua visão da sociedade portuguesa nos diários de William Beckford;
O mesmo P. vê também analogias entre a vida de Julia Mandeville de Francis Brooke e a situação da sua esposa;
Só uma coincidência permite que o desfecho aconteça da forma que P. deseja…

O livro começa por estabelecer que quem conta a história é uma espécie de editor, pois escolhe de entre os escritos de P. e selecciona das suas conversas e consultas de psiquiatria o que é relevante para contar a história.
Esta história é bem simples. P. é informado que tem cancro e que tem pouco tempo de vida. Então este homem, deprimido mas lúcido, procura respostas, pondo tudo em causa: a sua própria vivência, o valor da vida, as suas relações com a sociedade circundante e com a Natureza. Há um cruzamento de várias vozes. Desta polifonia surge repetidamente a importância da vida perante a certeza da morte.
O livro explora a tensão entre a vida e a morte e várias perspectivas de as encarar.
Em P., a partir de que sabe que vai morrer proximamente há como que uma hipertrofia da visão que o leva a observar aquilo que antes não vira, e a pensar sobre vários temas a que não dera tanta importância: como prolongar a vida?, o cancro é doença de civilizados?, etc.
Paralelamente o livro é muito crítico em relação aos portugueses. Refere testemunhos de viajantes estrangeiros que deixaram críticas violentas aos hábitos civilizacionais do nosso povo. No entanto, há também uma crítica a esses que nos criticam e não escrevem mais que generalizações, afirmando o narrador o seu desconhecimento da história: Os viajantes estrangeiros do séc. XVIII viam Portugal como se do oriente se tratasse. (p. 68 e ss.). Mas, num momento seguinte, afirma que os portugueses passaram de pobres a pobres de espírito, consubstanciando esta afirmação com a construção civil: as construções que foram surgindo e descaracterizando o país, e enchendo os bolsos a alguns. (p. 79 e ss,)
Há críticas à política, quer ao modo como os povos do norte nos vêem: «A degradação política e económica do sul da Europa em relação ao norte era percebida também como degradação social» (p. 62), querendo significar com isto que os países do sul integravam um ror de africanos; quer a nível nacional, entre outras, o favorecimento descarado de classes e grupos sociais, principalmente a dos políticos. Mas o povo que elege tais governantes não fica de fora: «O voto, a liberdade de palavra ou de propaganda são o pão que se dá aos imbecis mergulhados até ao inconsciente na atmosfera falsificada do circo.» (p.35)
Outras críticas afloradas: à caça - «…recomeço da época de caça que […] tristeza»; à inércia e abulia dos portugueses, nas palavras de P. - «…gordos, estão gordos os portugueses, são uma espécie de americanos pequeninos e escuros, bolas de sebo e de lixo.» (p. 88), naturalmente que esta frase implica também uma crítica severa aos americanos; ao uso e abuso dos telemóveis - «…os pequenos electrodomésticos para perguntar “Onde é que estás?” coloridos e barulhentos como uma vida postiça.» (p. 91)

Ainda sobre a dicotomia vida/morte é muito interessante a descrição que se faz de uma povoação ao sul do país, mostrando a importância da forma como se olha a realidade, primeiro por P., depois pelo seu psiquiatra. Transcreve-se um pequeno excerto:
«…um prédio de dois andares […] simplório e tosco, podre de velho, como se estivessem acumulados mil anos de miséria no betão, nas pinturas, nos caixilhos […].(p. 89-90)

«São belíssimas as casas construídas nas primeiras duas décadas do século XX que vemos pela vila, quase todas ostentando orgulhosamente a data da construção sobre a porta […]. Têm vãos com molduras de cantaria: ombreiras esculpidas e vergas curvas com florões em cima. Nas açoteias há platibandas decoradas com estuque ou pedra com desenhos do mesmo tipo dos vãos…» (p. 94)

Naturalmente que estas duas visões que, de uma forma grosseira, podiam ser equiparadas a morte e a vida, não são unívocas. O primeiro testemunho têm algumas notas de reconhecimento de um valor estético existente e anterior ao surgimento do turismo: «…esconde a vista e tira o vento às casas antigas da vila, feitas quando havia um Portugal bem público, respeito mútuo e lei…» (p. 90); o segundo apresenta também algumas notas disfóricas: «pequenos miranetes que permitiam ver a ria […] mas que agora não autorizam mais do que a vista das traseiras de prédios que o turismo fez erguer…» (p. 95).

O livro é extremamente rico, com uma linguagem cuidada e muitas referências cultas. Apetece completar a sua leitura com as de muitos dos autores e com a contemplação dos pintores citados, v.g., William Beckford, Gregório Felipe Franchi, William Hoghart, John Trusler, Frances Brooke, Curzio Malaparte, etc.

Algumas frases que muito apreciei:
«…a biblioteca pública onde aprendera o que são livros e para que servem.» (p. 16).
«Quem não consegue experimentar o amor sem causa não pode encontrar em parte alguma causa bastante para o amor.» (p. 52).
«O pânico é corporal, a coragem é mental, é o domínio do corpo pela mente.» (p. 124-125).

Nota: Em nenhum momento se pretendeu contar a história. São apenas notas, quase que desconexas, sobre a leitura.


Faleceu hoje, 30 de abril de 2016, o escritor Paulo  Varela Gomes, depois de cerca de quatro anos de luta contra o cancro.
Este escreveu em abril do ano passado um texto intitulado "Morrer é mais difícil do que parece".

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O ÚLTIMO ESPECTÁCULO, Manuel do Nascimento



Manuel do Nascimento nasceu em Monchique (onde a Escola Básica 2,3 ostenta o seu nome) em 1912 e faleceu em 1966. Trabalhou numa mina. Contatou com a realidade e apercebeu-se de que esta era bem diferente da idealização que dela se fazia. O conflito que existe dentro de si reflete-se nos seus contos.
O seu estilo e temáticas, pela crítica social e pelos protagonistas, podem inserir-se na corrente literário do neorrealismo, no entanto apresenta uma profusão de figuras de estilo[1] que aquela corrente depurou em grande parte.
O livro revela-se fácil de ler e em alguns momentos lembra contos de Manuel da Fonseca.

O último espectáculo é um livro de contos de 1955 que começa com o conto homónimo.
O título refere-se a um espetáculo de circo. Trata uma realidade comum na 1.ª metade do séc. XX: o circo ambulante, pobre e esfarrapado, mas cujo dono já viveu momentos de glória.
O dono, alcoólico, não faz dinheiro suficiente para pagar aos artistas, sonha com o passado, enquanto aqueles ameaçam deixá-lo se não receberem o que lhes é devido.
O narrador de 3.ª pessoa (heterodiegético) aproveita para generalizar sobre: as crianças exploradas e famélicas; a equilibrista bonita pronta para fugir dali, assim que algum homem lhe acene com uma perspetiva, ou ilusão, de futuro; o trapezista jovem e conflituoso. Tudo isto inserido numa perspetiva geográfica e social, ainda que não identificada, se infere sem a do Alentejo, em que muitos dos que veem o circo julgam que esses é que levam uma vida boa.

NADA DE IMPORTÂNCIA
Aqui, o narrador de 1.ª pessoa (autodiegético), engenheiro numa mina, conta o seu desagrado pela situação dos mineiros: condições de vida e trabalho. A sua angústia vai-se avolumando com a recordação de vários problemas ocorridos, redimida no final, quando é possível salvar alguns mineiros soterrados numa derrocada.
De qualquer modo a escolha do narrador autodiegético é um pouco forçada porque, no fim, não se justifica que o conto acabe sem resolver a situação que narra (narrativa aberta).

O VIZINHO
Narrador de 1.ª pessoa (homodiegético), testemunha que vai contando o que vê e sobre isso reflete.
Retrata a miséria dos trabalhadores braçais de sol a sol, vivendo em grandes famílias em casebres insalubres, alguns minados de doenças, capazes de, como nos dias que correm outros pobres comem o que encontram no lixo, comer o que aqueles com melhor sorte – a família do narrador – tinham colocado no balde dos porcos.

SAPO E LAGARTO
«-Sapo e Lagarto, o meu pai matou um porco.»
Motete com que os rapazes abusam de um pobre, ainda mais pobre do que eles, evidenciando a crueldade de um povo que se vinga naqueles que julga inferiores das ofensas daqueles que vê como superiores.
«As pragas que devem atirar-se ao tempo, à terra e à vida caem todas sobre os ombros fracos do velho.» (p.92). Veja-se que em nenhum momento se materializa a responsabilidade em outros homens. Medo ou consciência da censura?
Por fim, num dia de trabalho extenuante, quando o pobre velho, objeto de todo o gozo, aparece e o povo exausto não o invetiva, ele estranha e «descarrega contra si mesmo o veneno que trazia lá dentro…» (p. 94).

RESPEITA A MINHA DOR
Maria da Luz, casada há seis anos, aborrece a vida monótona que leva, a rotina da sua relação matrimonial. Conhece um pintor que encarna o seu ideal de amor. Encontra-se com ele algumas vezes e, então, decide-se acabar com o marido. Quando o confronta, incapaz de lhe revelar a sua relação com o pintor, queixa-se da vida que ele lhe dá. Este não a compreende, pois faz-lhe todas as vontades. Pensa que estará doente, que são nervos.
Ele deixa-a sozinha. Ela chora. Quando regressa à realidade, revê a sua vida, olha para «a pulseira cravejada de diamantes» e murmura: «-O António [marido] tem razão. São os nervos, os nervos malditos. Sim, devo ir ao médico.»
Nota: o título refere-se a uma frase marcante da carta que começa a escrever ao pintor para lhe dizer que não o verá mais. Mas destrói essa carta considerando que não lhe deve nenhuma justificação.

A FUGA
Um miúdo, com 10 anos, tendo vivido sempre em grande isolamento, um dia vai à feira da vila.
Vem de lá deslumbrado, só pensa no que viu, descura o trabalho de ajuda à família: sonha.
Pouco tempo depois, de madrugada foge e enceta o caminho para a vila, maravilhado por tudo ser novidade. Porém, quando chega à vila deserta – “como tudo estava diferente do dia de feira”-, procurou um homem que lhe oferecera trabalho e, de imediato, começou a trabalhar. Trabalho demasiado pesado para uma criança a troco de umas papas de milho e “toda a água que quisesse beber.”
Lembra o provérbio inglês “Out of the frying pan, into the fire.”

SILÊNCIO ESFARPADO
Contrabando. A primeira vez: medo, ansiedade, angústia. Como tudo corre bem vem a alegria pelo sucesso e o pagamento das dívidas.
Outra vez conduz as mulas com o sócio pelos ermos. Tudo vai correndo bem até que a situação de desafogo conseguida se torna notada e suscita a inveja do povo.
Prenúncio de desgraça. Agora é já de automóvel que a mercadoria viaja. A guarda está alerta e manda parar o carro. Eles não param, A guarda dispara e fere o companheiro.
Pensa livrar-se do sócio, mas decide esconder a mercadoria e levá-lo ao hospital.
Parece ser a sua oportunidade de arrepiar caminho, mas começa a pensar já ser dono de todo o negócio: «-Desta vez será tudo meu!»
Da necessidade à cobiça, à ambição desmedida.

A ESPERANÇA VOLTOU DE MANHÃ
Retrata o problema das cheias, o medo de perder as colheitas.
Até que de manhã para a chuva o casal protagonista se dirige à leira das batatas e constata que tinham escapado. Esta pequena alegria leva à aceitação e superação das suas dificuldades.

SUSPEITA
Isa acha estranho o comportamento do marido.
Ele reflete, sente-se culpado, porque se interessou por outra mulher, com a qual se encontrou algumas vezes em contexto de trabalho. Depois passaram um dia juntos. Ele pensa que tem de contar à mulher, Isa, mas mais tarde, com distanciamento.

Alguns exemplos de recursos estilísticos usados:
«casas… beijando o pó da estrada.»
«um homem… que a roubasse àquela miséria.»
«[Nina e a irmã] lembravam dois pequenos náufragos à deriva num mar encapelado.»
«As casas da curva da estrada lembram um harmónio velho apertado nos joelhos de quem lhe preme as teclas.»
«D. Luz tinha passado a noite numa insónia doce.»


[1] Alguns exemplos no fim.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O LANCE DE VÉNUS, Steven Saylor



Ingénuo! Julgava eu que esta trapalhada de afirmar isto e o seu contrário era uma característica desenvolvida pelos (políticos) portugueses. Nada mais errado. Não é mais do que uma herança que nos legaram os conquistadores romanos. Nem Viriato nos valeu.

“-Destruição de credibilidade […] a pedra de toque da jurisprudência romana. O acusador recorre a todos os meios para destruir a reputação do acusado, o que faz com que pareça mais provável que ele tenha cometido o crime de que é acusado. Depois, o defensor faz a mesma coisa, mas ao contrário, acusando os acusadores[1] de diversas abominações, a fim de destruir a sua credibilidade,” (p. 71)

Vamos então ao livro:
Este livro faz parte de uma série denominada Sub-rosa. Inclui: Sangue Romano, O Abraço de Némesis, O Enigma de Catilina, O Lance de Vénus, O Crime na Via Ápia e Rubicão (publicados em português).

O título vem de um jogo de dados romano, que no livro aparece referido numa taberna e bordel, em que o jogador ao lançar os quatro dados obtém um valor diferente em cada um deles.

Uma espécie de resumo:


Em 56 A.C., Díon, filósofo e embaixador egípcio, procura Gordiano, o Descobridor, que em jovem tinha sido seu aluno informal nas escadas da biblioteca de Alexandria. Disfarçado e aterrorizado por toda a delegação egípcia ter sido chacinada vem pedir ajuda a Gordiano para tentar continuar vivo.
Nessa mesma noite Díon será assassinado.
Gordiano é contratado para investigar a morte de Díon por Clódia, uma bela “femme fatale”. A procura de Gordiano revela a depravação da sociedade romana a vários níveis, nomeadamente política e de costumes. A verdade é indiferente em tribunal. O que vale são as orações dos acusadores e da defesa. Os testemunhos são despiciendos. Os homens e mulheres são facilmente descartáveis, principalmente os escravos. Em conclusão, não interessam os factos mas sim as palavras. Naturalmente, o fim é surpreendente: Díon foi morto por…
Nota: Os depoimentos dos escravos só eram válidos se obtidos sob tortura pelos oficiais do tribunal.
 


É espectacular a argumentação perante o Senado. Incrível como as orações, discursos, de Marco Célio e Cícero, no julgamento do primeiro, viram a acusação do avesso.

Frase de que gostei particularmente:

“Acho que o cabelo grisalho e as rugas são uma espécie de disfarce involuntário usado por todas as pessoas quando chegam a certa idade.” (p. 25)

Quem tiver oportunidade deverá ler os títulos pela ordem que foram publicados, pois fará mais sentido em relação aos factos históricos.


[1] Leia-se queixosos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

BELOVED, Toni Morrison

Romance interessante que nos dá uma visão crua do sofrimento dos negros na América pouco depois do final da Guerra da Secessão (1861-1865).
Retrata-se a fuga de alguns negros para os estados antiesclavagistas e a luta de uma mulher, Sethe, com a sua consciência e o seu estatuto de mãe.
Para além de um narrador exterior à história há várias vozes interiores que nos vão desvendando a vida da protagonista em conflito com o mundo e principalmente consigo própria e das suas relações, dando-nos, assim, diferentes perspetivas da ação.
O que mais se me impôs foram as sevícias de que os escravos eram alvo, a desumanidade e a degradação que brota da posição de poder absoluto, tratados como animais e vistos como um misto de homem e de besta. Por exemplo, o mestre-escola, esclavagista, solicita a um dos seus pupilos que num caderno escreva de um lado as características humanas de Sethe e do outro as características animalescas.
Revela-se também apelativa a cultura e a perspectiva dos protagonistas negros: o modo de comunicar, a humanização da natureza, um certo culto panteísta, a crença em fantasmas até à materialização dos mesmos, o caso de Beloved, que ao longo do livro somos levados a crer tratar-se da filha morta de Sethe.
Sethe descoberta pelo mestre-escola e seu grupo de caçadores de escravos fugidos, tenta matar os quatro filhos que tinha consigo, dois escapam com um corte no pescoço, uma menina é salva por um outro negro, mas Beloved é morta.
Toda a história é uma tentativa de redenção da mãe, Sethe, em relação a este seu crime. Quando, vinda do nada, e depois da chegada de um dos antigos amigos do marido, num dia de feira, lhes aparece uma jovem mulher, aos poucos todos começam a julgar ser a materialização do fantasma de Beloved que até então vinha assombrando a casa que habitavam e tinha sido recentemente esconjurado.
Quando Sethe se convence que aquilo é a sua filha, vai abandonando tudo, o trabalho, a sua outra filha, Denver, devotando-se completamente à tentativa de compreender Beloved e de se punir pela sua culpa.
Finalmente a comunidade negra, que há já muito tempo a desprezava, decide-se a ajuda-la. Nessa altura Beloved desaparece, grávida de Paul D., que logo no dia do seu regresso se tinha feito companheiro de Sethe, até ao momento em que percebe que o amor dela é tão possessivo que pode matar, mas que volta para ela, agora, que está de novo sozinha e provavelmente livre dos seus fantasmas.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A REGRA DE QUATRO, Ian Caldwell e Dustin Thompson

Uma vez que não se pretende contar a história, inclui-se a sipnose da contracapa:

“Princeton, Sexta-feira Santa de 1999. Dois finalistas
da prestigiada universidade encontram-se a um passo de resolver os mistérios da Hypnerotimachia Poliphili, um livro escrito por um nobre renascentista que manteve fascinados e intrigados os académicos desde o momento da sua publicação em1499. Para um deles, Tom Sullivan, a investigação constitui um vínculo com o seu passado e um obstáculo para a sua relação sentimental. Outro Paul Harris, converteu-a na sua relação de viver. Quando parece que a investigação fica novamente encalhada, aparece um diário que se considerava perdido e que contem dados cruciais para o seu desenvolvimento. Horas mais tarde, outro estudante implicado nas pesquisas aparece assassinado.”
“Este apaixonante romance combina o melhor suspense com uma brilhante reflexão filosófica. Através da investigação dos protagonistas o leitor mergulhará no fascinante mundo do Renascimento e assistirá a uma fiel recriação da vida das universidades de elite norte-americanas, até chegar a um desenlace surpreendente.”

O narrador e uma das personagens principais é Tom, Thomas Corelli Sullivan, de 22 anos, cujo pai fora professor universitário e investigador da obra à volta da qual se constrói toda a intriga.
Tom é um dos quatro estudantes que vivem juntos num alojamento universitário, sendo os outros: Gil, Preston Gilmore Rankin, presidente do clube Ivy, filho de um corretor da bolsa; Paul Harris, bolseiro, pobre e órfão, que conta com o auxílio de Richard Curry, mas que está ali por mérito próprio, pois é uma cabeça; harlie, rapaz negro de constituição atlética, prestável, filho de gente simples da classe média.
O romance vai muito para além da descrição da traquinice de um grupo de jovens. Surpreendentemente mostra determinação, capacidade de entreajuda e grande dedicação ao conhecimento e ao estudo na busca da compreensão de uma obra, aparentemente menor, e sem muito interesse a nível literário ou científico, do Renascimento italiano: Hypnerotimachia Poliphili, Aldus Manutius (ed.), cujo autor seria Francesco Colona.
Por outras palavras, impressiona, no mundo académico em que hoje vivemos, a capacidade de envolvimento numa actividade que basicamente procura o conhecimento, a resolução de um enigma, e que, para isso, é preciso adquirir um conjunto de saberes fantástico, pois passa pela leitura sistemática de quase tudo o que se escreveu antes da publicação (escrita) da Hypnerotimachia.
Outra vertente interessante da obra é a das relações humanas entre os quatro companheiros de quarto, os outros estudantes e as suas famílias. São-nos apresentados como muito independentes dos pais, demonstrando responsabilidade pelos seus actos por mais irreflectidos que sejam. Toda e qualquer incompetência recai basicamente sobre si mesmos.

Seguem-se citações de passagens que me agradaram:

“…uma convicção secreta que todos [os literatos] pareciam partilhar de que a vida tal como a conhecemos é uma visão imperfeita da realidade e de que só a arte, como uns óculos de ver ao perto, é capaz de corrigir esse defeito. Os eruditos e intelectuais com que eu convivi à mesa de jantar pareciam estar sempre animados de um certo rancor contra o mundo. Nunca conseguiam reconciliar-se com a ideia de que as nossas vidas não seguem a curva dramática que um bom autor constrói para um grande personagem literária.” p. 41-42
“A esperança é […] a melhor e última de todas as coisas. Sem ela, apenas existe o tempo. E o tempo empurra-nos pelas costas como uma força centrífuga, forçando-nos a afastarmo-nos para fora e para longe, até que nos lança no esquecimento.” p. 158

A respeito de Florença do séc. VX, cidade devassa (a escolha deste nome para a companheira do Frade, no nosso Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, não foi ingénua), mas ao mesmo tempo fervilhando de sabedoria a todos os níveis: literatura, pintura, escultura…

“Nessa cidade […] tens tantos intelectuais reunidos que ninguém sabe o que há-de fazer com eles. Génios. Polímatos. Pensadores […]. Autodidactas que ensinaram a si próprios línguas antigas que ninguém mais conhece.” p. 221
“Todos juntos, numa pequena cidade, ao mesmo tempo […] cruzando-se uns com os outros nas ruas, […] conversando uns com os outros,  trabalhando em conjunto, competindo, influenciando e estimulando-se uns aos outros para irem mais longe do que conseguiriam ir sozinhos.[Ao mesmo tempo] o seu comportamento é perverso, a sua arte e a sua cultura são profanas, […] o governo é injusto.” p. 222

Finalmente uma palavra para os autores, eles próprios jovens de “vinte e poucos anos”, têm o cuidado de, numa nota no final do livro, explicar as inconsistências históricas e as liberdades literárias tomadas.

sábado, 2 de outubro de 2010

SENTIDO SEXTO

Encontrei hoje um livrinho de poemas de um autor praticamente desconhecido e que, depois de breve pesquisa, percebo que já não faz parte de este mundo.
Gostei especialmente destes.

CAPTAÇÕES DA VERDADE

“Onde habitasse o desespero alheio,
deveria ter construído a minha casa!
- Onde habitasse um pássaro sem asas
pedindo uma árvore ou um veleiro ou
pedindo simplesmente
a mão do vento que sob o seu corpo
- a afogar-se de mágoa -,
transformasse em Espaço
o seu canto em mágoas prisioneiro!”

A UM NATAL ANTIGO

Neste Natal, já caído o pó de meio século
foi bom ouvir de novo a tua voz!
- O tempo é sempre ontem, pouco mais.
E os telefonemas, hoje, são tão nítidos
que unem ainda mais os meus ouvidos
- e a minha face –

àquele ano         antigo
de mil novecentos
e cinquenta e cinco…

SENTIDO SEXTO

Um Deus que me complete! – inspiro e penso –.
Um Deus que me levante do meu barro
terreno, sobre as asas para os astros
e que sobre as águas me transporte solto

como um barco visceral rumo ao tesouro
que se esconde ni sangue do meu corpo.
- Um Deus em mim procuro                e desamarro
tudo o que é perto e longe                   e alto e fundo,

tudo o que busco encontro                  e o que suspeito
pelos cinco sentidos com que sou um corpo…
E rangendo (o que penso) sob o peso do Tempo,

dentro do corpo – oculto ou liquefeito –
do desejo me nasce um sentido sexto!
- Sem palavras completo                   o que em palavras penso.

João Orlando Travanca-Rêgo, Sentido Sexto

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CARRELL, Jennifer Lee, O SEGREDO DE SHAKESPEARE, Círculo de Leitores, 2007


Desde cedo me surgiram perguntas:
Como é que a autora domina tão bem a obra de William Shakespeare?
Como é que consegue entrecruzar todas as histórias e enredos?
Será que conhece todos os lugares de que fala?
Dei-me ao trabalho de vasculhar a Rede e encontrei uma entrevista que responde basicamente a essas e outras perguntas. A autora é, desde muito cedo, uma estudiosa de Shakespeare, licenciada por Harvard e desde sempre coleccionadora de factos insólitos que a ele se referem.
Por outro lado, conseguiu fazer algo muito difícil, segundo as suas próprias palavras, vendeu o livro ainda como ideia, o que lhe permitiu utilizar fundos do editor para visitar os muitos lugares em que a intriga se desentola.
Nesta entrevista fica-se a saber, também, que abandonou a actividade lectiva e se dedica agora a tempo inteiro à escrita, pelo que podemos esperar outros bons livros dela.

O livro é uma espécie de caça ao tesouro e um thriller ao mesmo tempo. Numa velocidade alucinante, que de imediato lembra Dan Brown, a protagonista, Kate Stanley, anda de Inglaterra para os Estados Unidos e volta, passando por Espanha e de novo Estados Unidos, acabando o fecho dos pormenores a resolver já de novo em Inglaterra.
As personagens de maior relevo são Kate Stanley, ex-professora e investigadora de Shakespeare; Rosalind Howard, professora da primeira em Harvard, Ben Pearl, espécie de investigador privado; Matthew Morris, um outro professor especialista em Shakespeare e também aluno de Rosalind; Athenaide Preston, coleccionadora bilionária do dramaturgo e Sir Henry Lee, outrora estivador elevado a Cavaleiro do Reino devido à sua capacidade para interpretar o referido Poeta.
As personagens da história de Shakespeare, narração que acontece principalmente no prólogo e interlúdios que finalizam os quatro primeiros actos, pois o livro está dividido em cinco actos como as tragédias clássicas, vêm a ter reflexos na narração principal, chegando ao ponto de haver laços familiares envolvidos, e de ficarem mesmo insinuações não resolvidas que deixarão o leitor a pensar.

Poderá parecer, do que fica dito, que o livro apelará a gente votada À literatura. No entanto, quem gostou dos livros de Dan Brown, gostará deste; quem gosta de thrillers, também gostará deste. Acresce que está melhor escrito do que os do primeiro, e infinitamente melhor do que a maior parte dos segundos.
Finalmente, uma vez que não se pretende contar a história, é de referir que os grandes temas são os que frequentemente William Shakespeare tratou: inveja, ciúme, cobiça.

Para concluir e facilitar algum comentário que queiram tecer, registam-se algumas citações, que mostram a qualidade do texto e nomeadamente da descrição:

“…o teatro em volta do palco, que era uma grande plataforma numa das extremidades de uma arena octogonal a céu aberto. Em volta da arena ficavam as galerias, abertas para o lado de dentro como uma estreita casa de bonecas de três andares, cada andar estava cheio de filas de bancos de carvalho polido que se debruçavam sobre varandins que davam para a arena.” Pág. 35

“Levantei-me, afastando-me do abraço solidário de Sir Henrry.” Pág. 41
“A maior parte das histórias desvanecem-se quando acabam, mas as grandes histórias são diferentes. Ficam a pairar nas nossas mentes, a tecer os seus fios de ouro e de prata, até toda a teia da vida rebrilhar ao sol como seda ou opalas de fogo.” Pág. 158

“Há uma maré nos assuntos dos homens que, se a agarram em tempos de inundação, os leva à fortuna; se a deixam passar, toda a viagem das suas vidas é lançada contra escolhos e misérias…” (várias vezes repetida) pág. 218